Excerto
de Desenvolvimento e cultura: o problema
do estetismo no Brasil. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1963; 2ª edição,
1970; 3ª edição, São Paulo: Paz e Terra, 1980; reimpressão, Brasília:
Ministério das Relações Exteriores/Fundação Alexandre de Gusmão, 2009.
Comparando-se as edições, há alterações de texto quase imperceptíveis na 3ª
edição.
Cap. VI – Compreensão brasileira do problema europeu. O século das
luzes e Rousseau. Os diferentes tipos de romantismo europeu. O espírito
estetizante: o “homem cordial” e o “herói da inteligência”.
Nossa longa incursão nos domínios da cultura europeia terá parecido a
mais de um leitor uma digressão excessiva. Afinal de contas, o nosso intuito
declarado havia sido realizar um trabalho sobre o problema da cultura no Brasil
e, eis que uma atração irresistível pelas coisas da Europa nos parece ter feito
esquecer o que inicialmente havíamos manifestado ser nosso propósito. Antes de
voltarmos ao nosso estudo das realidades nacionais, faz-se mister, por conseguinte,
justificar o caminho indireto, o longo desvio que escolhemos. Veremos sem
dificuldade que ao tentarmos levar a efeito uma tal justificação, nos
encontraremos imediatamente no centro mesmo do problema da possibilidade de uma
cultura brasileira.
Um dos vícios básicos da nossa maneira de compreender a cultura europeia
é encará-la como um produto de uma legitimidade indubitável, como algo de
definitivo e de inelutável. Os nossos intelectuais católicos constituem uma
exceção a esta afirmativa. E a coisa se compreende: a posição católica requer
uma atitude de reserva com relação à cultura, uma subordinação do plano
cultural ao plano religioso. Mas, mesmo os intelectuais brasileiros que se
insurgem contra a nossa subserviência cultural, baseiam suas ideias sob a
premissa implícita de que o que a Europa produz no domínio da cultura é, do
ponto de vista do próprio consumo europeu, perfeitamente inatacável. Essa
produção europeia começa a ser suscetível de reparos somente depois de
transformada em material de consumo brasileiro, mas ainda então, as críticas
visariam não as próprias ideias europeias, mas a utilização artificial que
delas estaríamos fazendo. O mal estaria, assim, não na própria essência das
ideias europeias, mas no fato acidental de que não tendo sido elaboradas por
nós mesmos não poderiam a rigor servir à edificação da nossa própria realidade
cultural.
Com isso manifestamos, ao mesmo tempo que uma inegável indulgência, uma
severidade não menos certa, com relação aos produtos da cultura europeia. A
circunstância de aceitarmos como boas para a Europa todas as ideias surgidas no
solo europeu é, evidentemente, a consequência de uma indulgência excessiva; uma
atitude menos marcada por esta benevolência exagerada, nos levaria sem dúvida a
perceber entre as diferentes ideias europeias uma diversidade de valores
extremamente acentuada, percepção aliás que poderia se revestir de uma
significação especialíssima para o nosso desenvolvimento cultural uma vez que
nos obrigaria, em última análise, a tomar posição diante desses valores e a
denunciar aqueles que devessem ser rejeitados, não só por nós mesmos como pela
própria Europa. Por outro lado, a insistência em considerarmos más, para o
Brasil, todas as ideias surgidas na Europa é o resultado de um julgamento
demasiadamente severo; uma atitude menos marcada por essa intransigência nos
levaria, sem dúvida, a compreender que nem todas as ideias do velho mundo são a
rejeitar e que aquelas que no corpo de sua cultura representam o elemento
sadio, a força viva e renovadora, constituem justamente o fator precioso, a
realidade eficaz de que necessita o Brasil para levar adiante a tarefa difícil,
árdua e complexa de sua edificação cultural.
A distinção entre um ponto de vista brasileiro e um ponto de vista
europeu deve ser feita, por conseguinte, na problemática da cultura, levando-se
em conta os laços múltiplos e invisíveis que unem esses dois pontos de vista.
Nenhuma atitude é mais estéril do que aquela que consiste em considerar a
cultura europeia como um patrimônio precioso para a humanidade, mas sem
serventia para o Brasil. O fato de havermos feito, até hoje, uma utilização
pouco satisfatória desse patrimônio é um argumento contra nós mesmos, não
contra a cultura europeia. A nossa emancipação espiritual — se é que de fato
estamos destinados a promovê-la um dia — dependerá não da decisão radical de
nos afastarmos de tais fontes de cultura, mas de uma compreensão mais
aprofundada do que elas representam como valor inelutável para o futuro de toda
a humanidade, o Brasil inclusive. Eis porque a ideia de uma cultura brasileira
que seja autêntica e independente de padrões europeus agrava, ao invés de
eliminar, o impasse a que chegamos em virtude da nossa curiosa incompreensão do
fenômeno europeu.
E aqui tocamos um ponto com relação ao qual somos, como elite, como
classe que recebeu uma educação europeia, especialmente suscetíveis de crítica.
O brasileiro culto não tem a menor dúvida sobre o fato de que o repositório de
ideias de que dispõe a Europa constitua um patrimônio importante para o mundo
em geral; nem tampouco lhe parece ocorrer dúvida alguma quanto ao fato de que
esse patrimônio esteja sempre ao seu alcance, sempre à sua disposição, à espera
do momento em que se decida fazer o gesto de apropriação necessário. Mas, como
é pouco provável que lhe passe pelo espírito a ideia de que existam, talvez,
certas dificuldades no ato mesmo pelo qual se deverá efetuar essa apropriação!
Como é pouco provável que possua uma consciência nítida da sua incapacidade de
pensar livremente diante da questão de saber se vale ou não a pena realizar um
tal esforço de assimilação! Como é pouco provável que compreenda diante de uma
tal questão, que uma certa maneira de conceber a Europa já predeterminou o tipo
de resposta que será a sua!
Ora, esse é o ponto que nos parece apresentar maior relevância. No
capítulo anterior já indicamos como a situação intelectual da Europa
contemporânea encerra elementos contraditórios e como a adoção exclusiva de uma
entre as suas várias tradições levaria, fatalmente, ao paroquialismo, ao
unilateralismo em matéria de cultura. Antes de saber se no esforço de formação
da nossa substância nacional deveremos, sim ou não, utilizar elementos da
cultura europeia, o problema que nos confronta é, por conseguinte, verificar se
temos daquela cultura uma noção justa e adequada. Há em todo brasileiro culto
uma certa imodéstia com relação a este problema, uma pretensão de já o ter
resolvido e de não precisar de luzes alheias para fazê-lo. É comum encontrar-se
em livros brasileiros afirmações de um dogmatismo surpreendente sobre o que
deva ser considerada a tendência mais representativa do pensamento
contemporâneo. Na verdade, o que estas afirmações revelam é uma total falta de
sensibilidade para o clima de perplexidade em que vive o velho mundo, é também
a vontade de simplificar de um modo radical os dados do problema europeu. Dessa
simplificação resulta, naturalmente, a oposição de atitudes manifestadas no
nosso país entre os partidários de um nacionalismo cultural e os adeptos de uma
cultura brasileira apoiada em bases universais. Tanto uns quanto outros
compreendem a Europa de uma certa maneira mas não têm consciência de quão
deficiente e limitada é essa compreensão. Falta-lhes o sentimento de
perplexidade em que se debate o mundo europeu, falta-lhes, por conseguinte, a
perplexidade própria que os levaria a examinar com mais seriedade o fenômeno
europeu. Certos de que sabem em que consiste este fenômeno tomam com relação ao
mesmo uma atitude displicente e sumária que os leva fatalmente seja a se
pronunciarem em favor de uma Europa que não conhecem no seu misto de elementos
sadios, estéreis, fecundos e malsãos, seja a se pronunciarem radicalmente
contra ela, englobando na sua condenação os elementos mais diversos e
contraditórios.
Mas é evidente que reduzir as nossas relações culturais com a Europa a
uma questão de apreciação individual ou mesmo perguntar se vale ou não a pena
realizar no Brasil um esforço de assimilação de ideias europeias revela não
somente uma completa incompreensão do problema da cultura, como também uma
inteira incapacidade de perceber os rudimentos mesmos do problema europeu.
Antes de pronunciar-se de maneira tão dogmática sobre a inutilidade para o
Brasil da cultura europeia, os adeptos de um espírito autenticamente nacional
deveriam certificar-se de que conhecem verdadeiramente a Europa, deveriam
procurar nos mostrar que aquilo que rejeitam é uma realidade e não um fantasma.
Mas, na verdade, o que os diversos pronunciamentos realizados por esses
“nacionalistas” nos revelam é que da Europa eles têm a mais vaga das noções e
que o problema da cultura jamais constituiu para eles objeto de um estudo sério
e aprofundado.
Em que se resume a Europa para nós? Quase que integralmente no Romantismo
francês do século XIX. Uma tal constatação que deveria lançar as mais sérias
dúvidas sobre a maneira pela qual nossos antepassados “assimilaram” e a geração
atual continua “assimilando” a cultura europeia constitui, pelo contrário, o
ponto de partida habitual para os críticos e analistas brasileiros que comentam
a evolução da literatura e da arte do país. Trata-se, na verdade, de uma
reflexão tranquilamente feita pela maior parte dos estudiosos de nossas letras,
sem que a menor sombra de má consciência se acuse na maneira pela qual eles nos
introduzem no mundo da cultura nacional. Dir-se-ia que o Romantismo francês do
século XIX representou para os nossos antepassados e representa ainda para nós
a única forma possível de uma cultura de inspiração europeia, o único valor
espiritual que emergiu na Europa como resultado de um esforço de elaboração de
ideias duas vezes milenar. Diante de uma concepção tão sumária, tão inexata, do
desenvolvimento da cultura no velho continente, torna-se até certo ponto
compreensível que, de vez em quando, surja no Brasil um prurido de revolta
contra uma tal cultura; mas o que é surpreendente é que essa revolta tenha
levado os intelectuais brasileiros a reconsiderar o problema da cultura, mas
não o problema da Europa, como se desses dois problemas só o primeiro fosse
suscetível de uma reconsideração.
É nossa profunda convicção que para o Brasil os dois problemas se acham
intimamente ligados. Assim como para os europeus dos primeiros séculos da era
cristã o problema da cultura estava ligado ao problema da Grécia e a cultura
foi assimilada unicamente na medida em que a Grécia se tornava melhor
compreendida; assim como teria sido absurdo para um pensador daquela época
procurar extrair ideias do solo europeu, não levando em consideração a Grécia,
no afã de fundar uma cultura autenticamente nativa; assim como o processo do
desenvolvimento cultural do velho continente coincide, da maneira mais precisa,
com o processo do descobrimento das riquezas do patrimônio grego — do mesmo
modo nós, brasileiros, não poderemos pensar seriamente na nossa emancipação
cultural, sem termos preliminarmente abordado, com a consciência de uma enorme
tarefa a executar, o problema da Europa. Nossa falta de cultura se revela
justamente no fato de que, para nós, a Europa jamais constituiu um problema. A
facilidade com que aceitamos certas ideias europeias e a facilidade com que, de
vez em quando, proclamamos a necessidade de uma cultura nacional, mostram bem
como no entusiasmo, como na decepção, o que nos falta é o senso de solidariedade
com o velho continente, sem o qual relações culturais verdadeiramente eficazes
jamais poderão se estabelecer. É de um tal senso de solidariedade que
resultaria a capacidade crítica de discernir os elementos da cultura europeia
que poderiam nos ser úteis — o entusiasmo total, a aceitação irrestrita que
certas pessoas confundem com essa solidariedade nada mais são do que uma
manifestação vaidosa e ingênua que deriva da noção ilusória de que o importante
é parecer com os países do velho mundo, mesmo que essa parecença implique uma
adesão aos elementos menos valiosos da cultura europeia.
Foi por achar que o problema da Europa tem prioridade sobre o problema da
cultura que reservamos no nosso trabalho um tão grande espaço à análise das
ideias europeias. Este último problema não pode ser resolvido de um modo
abstrato; não nos é possível decidir sobre quais devam ser as bases e a
natureza da nossa cultura nacional sem termos um exemplo, uma ilustração
daquilo que, de uma maneira geral, possa representar uma cultura. O erro mais
comumente cometido pelos intelectuais brasileiros que procuram situar o
problema da cultura independentemente do problema europeu consiste em adotar,
como soluções definitivas, formulações abstratas, que foram, naturalmente,
elaboradas no velho mundo mas que estão longe de constituir respostas capazes
de englobar a totalidade dos elementos a elucidar. Citemos aqui, por exemplo, a
noção de um ideal latino que constituiria a vocação irresistível do nosso
espírito ou a ideia de uma tradição católica que teria deixado marcas
indeléveis na nossa alma coletiva, ou, finalmente, o conceito de uma cultura
autêntica, não alienada, baseada em nossa realidade econômico-social, conceito,
como se sabe derivado do marxismo. Para adquirirmos a certeza de que a nossa
ideia de cultura não é estreita, unilateral ou incompleta, só há um meio:
procurar na história uma lição convincente e que possa se constituir como
paradigma. O modelo latino, por exemplo, dificilmente poderia aspirar a uma
situação de supremacia indiscutível sobre os demais padrões que a Europa teria
a nos oferecer. Não vemos nós os países da Europa Latina — a Itália, a Espanha
e mesmo a França — procurarem renovar hoje em dia o seu espírito através de um
contato com as ideias dos povos não latinos? Do mesmo modo uma cultura
exclusivamente católica nos obrigaria a uma dependência intelectual de um
sistema de ideias do qual o mínimo que se poderia dizer é que ele pertence ao
passado. Mesmo se admitirmos o fato de uma tradição católica no Brasil e a necessidade
de respeitarmos os laços que nos ligam a essa tradição, ainda assim, o
imperativo de uma cultura católica não estaria demonstrado. A única tradição
cultural que existe no Brasil é a tradição do Romantismo francês do século XIX.
O nosso catolicismo, na medida em que deixa de ser uma mera observância de
ritos para se elevar ao plano de uma consciência cultural, se situa, como todas
as outras tendências e ideias que formaram o espírito brasileiro, dentro dos
quadros desse Romantismo. Um Gustavo Corção com o seu humor cáustico,
voltairiano, não se situa menos dentro do Romantismo francês. Se no plano da
sensibilidade o seu modelo é Chesterton, no plano das ideias o seu mestre é,
incontestavelmente, Maritain. A impressionante semelhança que encontramos entre
as atitudes espirituais de homens como Maritain, Léon Bloy, Bernanos, René Schwob
e Chesterton de um lado e Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima, Otávio de
Faria e Gustavo Corção do outro, não é mero produto do acaso. Uma mesma atitude
romântica de desafio à cultura contemporânea parece ser o traço comum a todos
eles. No Brasil, essa atitude de desafio é menos visível. E a razão disso é
óbvia: Maritain, Léon Bloy, Bernanos, Schwob e Chesterton, etc., autores ainda
em vida ou recentemente desaparecidos, são naturalmente os modelos escolhidos
pelos nossos católicos que os consideram e apresentam ao público brasileiro
como os verdadeiros representantes da cultura da Europa contemporânea.
Quanto ao ideal de uma cultura autêntica, não alienada, já discutimos o
problema suficientemente em outros capítulos para que nos seja agora necessário
acentuar ainda o fraco poder de persuasão que encerra. Digamos apenas que aqui,
mais uma vez, temos diante de nós uma noção estreita, uma visão parcial do
problema da cultura e, na verdade, uma noção bem mais estreita, uma visão bem
mais parcial do que a formulação romântica. A ideia rousseaniana de um estado
de alienação do homem com relação à natureza e a si próprio — ideia que
indiscutivelmente está na base da concepção de uma cultura alienada —
pressupõe, evidentemente, a noção romântica de que o natural é superior ao
social (1), o espontâneo superior ao normativo, noção que por sua vez pressupõe
a rebelião contra o princípio ético levada a efeito pelo Renascimento italiano.
Mas enquanto o espírito do Renascimento italiano ou o do Romantismo representam
uma atitude geral que acabou por se identificar com uma parte essencial da
estrutura da consciência europeia, a noção de uma consciência alienada ou de
uma cultura alienada constitui, ainda hoje, uma concepção paroquial que repugna
à maior parte da consciência europeia.
Precisamos nos decidir seriamente a considerar o problema da cultura
europeia como o problema preliminar por excelência, a partir do qual possam ser
encontradas as soluções para o problema da nossa cultura. É somente depois de
tomarmos uma tal decisão que poderá a nossa situação espiritual se tornar
objeto de uma investigação proveitosa.
Hoje em dia nos vemos em presença de um sem número de tendências
literárias, artísticas ou filosóficas, mas o fato de parecer faltar a todas
elas um nervo íntimo, um caráter de necessidade, nos faz hesitar e dar à nossa
adesão um sentido apenas provisório. É curioso observar como são frequentes
entre os intelectuais e artistas brasileiros as conversões, sejam elas
religiosas, literárias ou artísticas — é curioso notar como eles se tornam
positivistas, evolucionistas, católicos, marxistas, abstracionistas,
existencialistas ou adeptos do espírito científico sem que nenhum antecedente
cultural, seja ele individual ou nacional, explique essa súbita mudança de
orientação. Uma tal instabilidade cultural não parece constituir um sintoma
positivo, não parece se um indício do dinamismo espiritual capaz de assumir
sempre novas formas, de levantar sempre novos problemas; parece, ao contrário,
trair a perplexidade de uma alma que se sente perdida, que procura um porto,
uma abrigo que lhe seja favorável e que na ânsia de escapar à imensidão
desértica vai, muitas vezes, se refugiar em terras inimigas.
A razão de um tal estado de coisas se encontra, possivelmente, numa
compreensão insuficiente da Europa. O senhor Alceu Amoroso Lima, por exemplo,
um dos nossos escritores mais versados na literatura europeia, converteu-se ao
catolicismo para escapar à “disponibilidade”, em virtude da qual, segundo ele
próprio nos conta, passara anos numa espécie de irresponsabilidade intelectual,
fazendo da cultura um fim em si mesmo, quando na realidade, segundo compreendeu
mais tarde, ela não deveria significar para nós mais do que um simples meio, do
que um simples instrumento. Sem querer discutir aqui a posição espiritual
assumida pelo senhor Amoroso Lima, não podemos entretanto deixar de observar
que os antecedentes culturais que motivaram a grave decisão tomada pelo nosso
líder católico longe estavam de representar uma lição de cultura tal como a
Europa é capaz de nos proporcionar. O clima intelectual de fim de século que
respirou a adolescência e a juventude do senhor Amoroso Lima, os paradoxos de um
Oscar Wilde, as ironias de um Anotele France e as sutilezas de um André Gide
longe estavam de representar tudo que poderíamos ter aprendido da Europa
naquela época em matéria de cultura e, embora seja compreensível o movimento de
quem procura se libertar de valores tão fictícios, nem por isso se torna
aceitável a identificação desses valores com a totalidade da ideia de cultura.
O caso do senhor Amoroso Lima é típico para a inteligentsia brasileira.
Os acasos de sua formação espiritual determinaram a sua concepção de cultura, a
qual uma vez elaborada passou a constituir o ponto de referência único, o
critério que presidia suas apreciações sobre a diversidade dos fenômenos
intelectuais ocorridos na Europa. Mas cabe aqui perguntar: — Não representa
para o intelectual brasileiro uma obrigação importante, um dever dos mais
estritos, evitar que a sua formação espiritual dependa do acaso dos encontros
literários, artísticos ou filosóficos, evitar que a sua ideia de cultura derive
do contato com a manifestação de um tipo parcial e incompleto de cultura?
Justamente porque a nossa tradição cultural é precária, justamente porque ela
se resume a pouco mais do que o Romantismo francês do século XIX, deveríamos
ter sempre em mente o caráter forçosamente fragmentário de nossas concepções de
cultura de modo a completá-las com um esforço de penetração nos aspectos do
passado espiritual europeu que ainda não tivemos a possibilidade de apropriar.
Para os intelectuais europeus essa exigência não se apresenta com a mesma urgência.
Mergulhados numa tradição mais vasta, não correm o risco de serem tiranizados
por epígonos como foi o senhor Amoroso Lima, e não são consequentemente levados
a reagir contra eles com a violência do desespero que não hesita em pôr em
dúvida o valor mesmo e a significação do esforço de cultura.
E aqui chegamos a um ponto importante e que convém elaborar do modo mais
completo que nos for possível. Quando o senhor Amoroso Lima denuncia o que ele
chama de culturalismo — a tendência a transformar a cultura num fim em si
mesmo, quando deveria resignar-se à função mais modesta, à função de simples
meio, de simples instrumento — o que ele no fundo está atacando é o estetismo,
é a concepção de uma cultura meramente formal, meramente ornamental. É curioso
observar como um homem bem informado como ele tenha podido aceitar a ideia de
que o princípio ético só é suscetível de apreensão fora da área da cultura, só
é capaz de afirmar sua presença nos domínios da religião. A oposição que
estabelece entre um plano religioso e um plano cultural é desnecessária e
perigosa; desnecessária porque equivale, na verdade, à oposição entre o
princípio ético e o princípio estético no próprio plano da cultura; perigosa
porque tende a desprestigiar a noção da cultura que urgiria, ao contrário,
enaltecer, pois representa um dos imperativos a que deveremos obedecer se
quisermos um dia ser um grande povo.
Nada mostra melhor a tirania que exerce sobre nós o espírito estetizante
do romantismo do que este esforço de natureza ética no sentido de uma
libertação dos males da cultura. Não tivesse o senhor Amoroso Lima identificado
de uma maneira tão completa cultura e estetismo, e a ideia de uma cultura ética
se teria apresentado ao seu espírito como uma possibilidade que seria
interessante examinar. A vantagem que um ideal ético não estreitamente ligado a
uma concepção teológica particular manifesta com relação a um ideal
ético-religioso, tal como o do catolicismo, consiste justamente nessa sua
possibilidade de se transformar em cultura. A cultura secular é, inegavelmente,
em nossa época, a única autoridade espiritual capaz de exercer sobre a
humanidade uma influência decisiva. A Igreja de Roma continua hoje sua
existência como se a Revolta de Lutero não tivesse tido consequências
desastrosas para a sua autoridade sobre os homens; mas na realidade, se
quisermos examinar com objetividade a situação espiritual do mundo
contemporâneo, deveremos reconhecer que o ideal católico poucas possibilidades
tem de voltar à sua antiga posição de prestígio. Uma tal constatação será
naturalmente alarmante para o espírito ético que tenha compreendido os efeitos
perniciosos da propagação da cultura do Renascimento italiano, que tenha
percebido a ação insidiosa do estetismo sobre todos os aspectos da realidade
espiritual do homem; mas ela deverá ter um sentido ainda mais grave para os
católicos capaz de um momento de dúvida e de incerteza pois eles acreditam
encontrar na Igreja de Roma a salvação do mundo e estar a sorte do ideal ético
indissoluvelmente ligada à sorte do ideal católico.
Felizmente para nós há grandes probabilidades de que neste particular os
católicos se enganem. Digo felizmente porque se a identificação do ideal ético
e do ideal católico exprimisse uma verdade certa, o mundo estaria
definitivamente perdido. A Igreja de Roma não parece ser capaz de salvar o
mundo; a sorte do ideal ético capaz de regenerar o espírito humano não parece
estar indissoluvelmente ligada à sorte do ideal católico. Na nossa análise das
ideias que contribuíram para a formação do espírito europeu, vimos destacar-se
uma tradição extremamente importante, uma tradição donde se originou a
possibilidade de uma cultura ética. Negar valor a essa tradição, como o fazem
os católicos, atribuir-lhe os mesmo vícios que encontramos na tradição renascentista
(como se a atitude individualista fosse essencialmente uma atitude viciosa) é
condenar-se de antemão a uma situação de alheamento, de não participação nos
problemas espirituais da Europa contemporânea. E, por maiores que sejam os
esforços feitos pela Igreja de Roma no sentido de se modernizar, de acompanhar
os progressos sociais e intelectuais do mundo contemporâneo, o seu espírito
está irremediavelmente ligado a fórmulas do passado e não poderá, por exemplo,
de modo algum, aceitar o fato da autoridade espiritual de uma cultura secular,
fato sem o qual a história de nossos dias se torna incompreensível.
É este desinteresse pela possibilidade de uma cultura ética que faz o
senhor Amoroso Lima pronunciar-se de modo tão definitivo sobre os “males da
cultura”. O fenômeno que tem em mente é o da cultura estética do Renascimento
italiano, única forma de cultura aliás que conhecemos no Brasil. É curioso
observar como uma verdade tão evidente quanto a que concerne a nossa exclusiva
dependência de ideias renascentistas e que comporta naturalmente consequências
de tão grande importância para o estudo da personalidade do homem brasileiro —
é curioso observar como essa verdade tem sido sistematicamente ignorada pelos
nossos estetas, sociólogos e filósofos.
Já tem sido assinalado pelos nossos estudiosos que o Brasil é um fruto do
Renascimento. Mas a esse fato que necessita ser aprofundado, tem-se atribuindo
um alcance extremamente limitado e que está longe de corresponder à sua
verdadeira significação. Não é somente na sua realidade física, econômica,
social e política que o Brasil se explica pelas suas origens renascentistas.
Espiritualmente também o Brasil se revela como um autêntico produto do
Renascimento. Na nossa maneira de julgar aquele movimento, nos deixamos
influenciar por ideias portuguesas e manifestamos a tendência a ver na epopeia
dos descobrimentos marítimos a sua característica mais essencial. Mas antes de
ter consequências no plano fisiográfico, econômico, social e político, o
Renascimento italiano constituiu um fenômeno espiritual da mais alta
importância e que marcou de maneira indelével a alma do homem ocidental. Não
foi o fato da descoberta da América que determinou o aparecimento das
características renascentistas nessa alma, foi ao contrário, a existência de
tais características que criou as condições em virtude das quais os
empreendimentos marítimos e aquela descoberta se tornaram possíveis.
Estamos aqui diante de uma constatação das mais elementares mas na
verdade, seja por imitação dos portugueses que associam irresistivelmente a
ideia do Renascimento à ideia dos Empreendimentos marítimos; seja pelo desejo
de uma participação maior do que a manifestada por uma simples relação indireta
com o grande movimento intelectual ocorrido na Europa: seja, enfim, por simples
falta de clareza nas nossas ideias, procuramos sempre compreender o nosso
destino como ligado imediatamente àquele grande triunfo da cultura italiana.
Mas basta comparar os desenvolvimentos subsequentes à Descoberta em três pontos
diferentes do continente americano, na América Latina, nos Estados Unidos e no
Canadá, para compreender que o fato dos Empreendimentos marítimos haverem sido
o resultado do clima espiritual criado pelo Renascimento italiano, não
constitui motivação suficiente para assegurar às terras descobertas em virtude
desses Empreendimentos um destino inelutavelmente renascentistas. Com efeito,
nos Estados Unidos o espírito da Reforma se faz sentir, hoje em dia, de modo
incomparavelmente mais forte do que o espírito do Renascimento italiano, e no
Canadá a influência dessas duas tendências parece se contrabalançar. Se no
Brasil podemos afirmar que, ainda hoje as ideias renascentistas exercem uma
influência preponderante, a razão disso deverá ser extraída não dos fatos acima
indicados, mas de alguma outra circunstância que não foi suficientemente
elucidada.
O clima espiritual dos Estados Unidos de hoje se explica em parte pelo
puritanismo dos ingleses que, procurando escapar à intolerância religiosa,
embarcaram rumo ao Novo Mundo. Poderíamos da mesma maneira explicar o clima
espiritual do Brasil de nossos dias pelo espírito renascentista dos Portugueses
que aportaram às nossas terras com a intenção de nelas se fixar? Colocado desse
modo o problema, se evidencia logo a artificialidade da identificação que já
referimos, do ideal renascentista com a grande aventura marítima dos
portugueses. Na realidade, a ideia de um renascimento português é um eufemismo
cuidadosamente cultivado por historiadores da arte e da literatura portuguesas
que veem no estilo manuelino uma expressão de grande originalidade
arquitetônica e em Camões uma grande figura universal. Mas, justamente a
qualidade daquele estilo e do humanismo que encontramos em Camões, de sentido
absolutamente idêntico, dando ênfase não ao fenômeno individual mas ao fenômeno
coletivo, deveria nos alertar para o fato de que não houve em Portugal um
renascimento no sentido em que o entendeu a cultura italiana do quattrocento.
O culto da virtu individual que fez do homem formado naquela cultura
um microcosmo, um todo autônomo e dotado de uma exagerada consciência de si
mesmo, esse culto nenhum papel exerceu na elaboração do estilo manuelino ou na
vida de Camões, cuja personalidade manifesta claramente a tendência a
reverenciar valores mais altos que ele próprio, como a Pátria e a Religião.
Assim, a imagem que os criadores daquele estilo ou o gênio de Camões nos legam
não é a de um homem possuidor de altas qualidades, consciente de seus dons e do
grande destino que o espera — que é a essência do humanismo italiano — mas a de
um povo, a de uma coletividade empenhada numa tarefa menos estética do que
moral pois os Empreendimentos marítimos afinal de contas não se justificam por
si mesmos mas unicamente porque levam a terras distantes a religião do Cristo,
e nada mais são do que um outro aspecto da vocação que sente Portugal de se
constituir como o defensor da Cristandade, numa Europa dividida e, por isso,
incapaz de se defender contra as ameaças
renovadas do Islã. — Por isso a característica fundamental do Renascimento
italiano a autonomização do princípio estético — não se verifica nas obras
máximas do Renascimento português, no Mosteiro dos Jerônimos ou n’Os Lusíadas. Uma tal constatação
é mais do que suficiente para estabelecer o fato de que Portugal jamais
elaborou de uma maneira precisa o ideal renascentista e que, por conseguinte, o
Brasil jamais poderia ter herdado esse ideal dos portugueses. Basta aliás
refletir um momento sobre as influências espirituais que teriam podido se exercer
sobre a nossa vida colonial para compreender que a noção de um Brasil herdeiro do ideal
renascentista português pertence ao domínio da mais completa utopia. As ideias
de cultura que desde cedo, que já no século XVI aportaram às nossas terras,
foram naturalmente as ideias da Contrarreforma. Manuel da Nóbrega chegou ao
Brasil antes mesmo de ter sido publicado Os Lusíadas e durante dois
séculos, até a expulsão da Companhia de Jesus em 1759, nosso país constituiu um
campo de experiência extraordinária para a projeção da vocação missionária e
educativa dos jesuítas.
Cabe assim estranhar, como o fez o senhor Amoroso Lima na sua Introdução
à literatura brasileira que num país de formação católica como o nosso
tenha havido tão poucos escritores de importância que possam ser classificados
como católicos. Mas a razão que nos sugere o senhor Amoroso Lima para um tal
estado de coisas — a influência do espírito da Reforma — é das mais
inconvincentes. As ideias do protestantismo jamais agiram sobre a consciência brasileira
de um modo verdadeiramente eficaz. A ocupação holandesa no norte do Brasil não
poderia ter tido esta consequência cultural pela simples razão de que naquela
época a igreja reformada não se sentia possuída de uma vocação missionária,
ocupada como estava de sua própria consolidação na Europa. A aventura da França
Antártica durou apenas dez anos e confinou-se à baía do Rio de Janeiro. E o
tipo de literatura europeia que produziu impacto sobre a inteligentsia brasileira não possuía raízes protestantes. Por que
canais poderiam ter chegado então ao Brasil as ideias da Reforma de Lutero? Por
intermédio dos raros núcleos evangélicos ou pelas instituições de ensino
anglo-americano, que surgiram no país a partir do século passado? Os nossos
sociólogos mais minuciosos não favorecem essa hipótese (2). É evidente que
deveremos procurar outra explicação para o fato assinalado pelo senhor Amoroso
Lima.
Um dos sintomas mais alarmantes da tibieza da nossa consciência cultural
consiste em não termos ainda podido reconhecer plenamente o fato de que, se
devemos aos portugueses a língua que falamos e a religião que praticamos, o
nosso espírito, o nosso acervo de ideias e a nossa maneira de sentir resultam
de contatos com outro povo e outra civilização. Há entre os estudiosos da
realidade brasileira uma tendência a ignorar este fato que, na verdade,
apresenta características de uma anomalia monstruosa e que por isso é
simplesmente rejeitado, expelido da esfera legítima das interpretações e
explicações que o desenvolvimento cultural de uma nação pode normalmente
reclamar. Com efeito, como é possível imaginar uma herança religiosa e
linguística que não seja, ao mesmo tempo, acompanhada de uma herança de ideias
e de maneiras de sentir? Como é possível dissociar esses elementos que só podem
ser concebidos na estreita associação de um com outro? À primeira vista, de
fato, a coisa parece ser impossível. Mas quando refletimos sobre o problema da
cultura brasileira e quando verificamos os magros resultados obtidos depois do
esforço de assimilação intelectual de vários séculos não deveremos talvez
pensar que existem obstáculos excepcionais ao bom êxito de tal esforço e que
esses obstáculos apresentam justamente um caráter insólito, um aspecto
monstruoso, qualquer coisa no gênero do que fomos levados a sugerir acima?
Os entusiastas da cultura portuguesa entoam hinos ao Renascimento
lusitano, à epopeia dos descobrimentos marítimos, mas esquecem que da metade do
século XVI à metade do século XVIII, isto é, durante um período que poderia ter
sido extremamente fecundo para a nossa formação espiritual — a Europa passava
então por um dos seus momentos de maior efervescência — Portugal vivia de
ideias medievais e não podia assim nos oferecer senão os fracos estímulos de
uma cultura completamente desatualizada. A mesma Companhia de Jesus, que no
Brasil realizou trabalhos tão notáveis e que por isso é merecedora do nosso
mais irrestrito reconhecimento, instalou-se na Universidade de Évora, no
Colégio das Artes em Coimbra e em muitos outros colégios espalhados pelo reino
a partir da metade do século XVI e lá permaneceu durante dois séculos
aprisionando o espírito português em formas de pensamento que a Europa havia
elaborado nos séculos XII e XIII mas que já agora haviam sido amplamente
superadas. Na metade do século XVIII Portugal, além da língua e da religião,
não podia por conseguinte nos transmitir senão ideias da cultura medieval. O
próprio Camões, que constituía a única manifestação em Portugal de um espírito
verdadeiramente novo, pôde ser facilmente enquadrado dentro dos objetivos de
uma educação jesuítica, uma vez que era na Pátria e na Religião, e não no
indivíduo com virtu, que residia o seu ideal supremo.
Os males que resultam, para um país como o nosso, de ter sido educado até
uma fase adiantada do seu desenvolvimento material por uma forma de pensamento
reacionário, como era o da Contrarreforma não se reduzem unicamente ao fato de
termos perdido tempo, de termos nos atrasado com relação às possibilidades
inerentes à situação cultural do mundo daquela época. Afinal de contas havíamos
surgido quase que do nada e qualquer influência espiritual, mesmo a influência
das ideias já gastas do mundo medieval representava para nós um enorme
progresso. Tivesse-nos sido dada a possibilidade de desenvolver uma cultura a
partir dessas ideias e teríamos então tido diante de nós uma tarefa idêntica
àquela que coubera à própria Europa: os nossos resultados, embora tardios,
poderiam talvez ter sido equivalentes aos dela. Mas uma tal sugestão pertence
naturalmente ao mundo da utopia e se a fazemos é para melhor realçar o caráter
inexorável das circunstâncias históricas. O isolamento cultural é de todos os
isolamentos o mais pernicioso porque é impossível mantê-lo indefinidamente, e
quando os contatos são novamente restabelecidos, a parte que se havia
retardado, que se havia subtraído à circulação geral das ideias, é violentada
na sua realidade mais íntima e perde de modo desastroso as suas características
mais essenciais. É como se devesse ser amputado o passado que se anquilosou,
que se recusou a manter uma ponta orientada para o futuro, e como se um novo
começo a partir só ponto zero se tornasse agora necessário. O desejo de
eternizar formas de pensamento por um sistema de isolamento artificial leva,
assim, inelutavelmente à destruição completa dessas formas; e aquilo que
poderia ter servido de base a uma evolução gradual e harmoniosa passa
subitamente de um estado de mumificação em que a aparência de vida era buscada
à condição aflitiva de um monturo de cinzas que nenhuma ilusão mais pode
entreter e que nenhum futuro mais pode encerrar.
A partir da metade do século XVIII as portas de Portugal começam a se
entreabrir à influência das ideias que agitavam o resto da Europa. Pombal
realiza suas reformas, os jesuítas são perseguidos e a Companhia é finalmente extinta
por bula papal de 1773. E o que acontece com a cultura portuguesa? Ela se
desnacionaliza. Portugal torna-se culturalmente uma província, uma colônia da
França. A fé de Camões numa missão extraordinária reservada ao povo lusitano, a
sua visão de um Portugal destinado a preservar para uma Europa displicente o
ideal sublime do cristianismo, os seus belos sonhos, em suma, se desfazem num
acordar que, da mesma forma que o sono, procura antes de mais nada esquecer-se
e encontrar na realidade do vizinho um estímulo, um motivo, uma justificação
para a existência.
Não nos interessa estudar aqui o fenômeno português e as suas relações
com a Europa. O assunto é sem dúvida dos mais dignos de atenção, mas não cabe
infelizmente dentro do objetivo a que nos propusemos. Para o nosso estudo é
suficiente assinalar que se o Brasil adotou, como se costuma dizer, a França
como seu antepassado espiritual, uma tal adoção não resultou de uma decisão de
nossa vontade autônoma, de um ato em que se manifestasse nossa liberdade, nossa
preferência amorosa pelas coisas francesas. Até a metade do século XVIII o
Brasil havia obedecido cegamente às determinações culturais oriundas da
metrópole; a partir daquela data, todas as veleidades de um contato com a
França — pois que um verdadeiro contato só se estabeleceu depois da nossa
emancipação política — nada mais representaram do que um último ato de
obediência à autoridade da cultura portuguesa.
E com isso, cremos ter respondido à pergunta do senhor Amoroso Lima sobre
a raridade de escritores católicos no Brasil. A liquidação do espírito da
Contrarreforma em Portugal produziu, no Brasil, um estado de orfandade que
impossibilitou durante mais de um século o aparecimento de um catolicismo cultural.
As ideias que no fim do século XVIII e em todo o século XIX iriam determinar a
evolução da cultura no Brasil nenhuma relação possuíam com o clima intelectual
que precedera sua erupção no cenário brasileiro. E embora alguns de nossos
estudiosos se comprazam em ver uma relação entre o índio brasileiro e as teses
de Rousseau, a verdade é que a adoção das ideias francesas significou para nós,
como já havia significado para Portugal, um repúdio do nosso passado cultural,
repúdio, que, por mais insignificante que houvesse sido esse passado, não
deixaria de ter graves consequências.
Ficamos em primeiro lugar destituídos durante mais de um século de uma
consciência cultural católica. Mas esta não foi a única consequência a
assinalar do eclipse por que passou a Companhia de Jesus. Uma segunda
consequência, talvez mais importante, consistiu no fato de que, ao adotarmos a
França como fonte exclusiva de nossa inspiração cultural, criamos um abismo
entre a consciência das classes educadas e a mentalidade simples do povo que
não faria senão se agravar à medida que nos entranhávamos mais e mais nas
ideias francesas. A língua e a religião passaram desde então a não mais
constituir um todo com o acervo de ideias e as maneiras de sentir que
cultivávamos. Falávamos português, frequentávamos a Igreja Católica, mas a
essas duas práticas se reduzia o contato das elites cultas com o povo
ineducado. Pensar passou a representar para as nossas elites não mais um modo
de elevar os sentimentos e esperanças obscuras do povo ao nível da consciência
clara e da articulação das ideias, mas uma maneira de ser diferente, aquilo que
a distinguia da plebe. Não deve pois constituir motivo de surpresa o fato de
que as nossas elites jamais tenham podido transmitir ao povo as ideias que
receberam da França. Uma cultura de caráter ornamental instalou-se no Brasil,
não porque fosse europeia e precisássemos de ideias brasileiras: no divórcio
entre a religião e a língua de um lado, e as ideias de cultura do outro,
residiu indiscutivelmente uma das razões mais importantes desse ornamentalismo
cultural.
Mas a liquidação da cultura da Contrarreforma em Portugal e no Brasil
teve ainda uma terceira consequência e, esta, decisiva para a compreensão da
nossa história espiritual. Fazendo tábua rasa do seu passado intelectual, o
Brasil voltou-se para a França. Mas o que representava a França, que sentido
íntimo possuía a sua cultura nos fins do século XVIII, durante todo o século
XIX? É realmente extraordinário que os nossos estudiosos, ao procurarem interpretar
o sentido da cultura brasileira não tenham experimentado a necessidade de
aprofundar este ponto absolutamente essencial para qualquer esforço de
compreensão da nossa realidade. Na nossa interpretação do fenômeno francês,
temos sempre cometido o erro em que costumamos cair ao apreciar o fenômeno
português. Vemos a França com olhos franceses como vemos Portugal, sobretudo o
seu Renascimento, com lentes portuguesas. Mas se há um meio de nos emanciparmos
espiritualmente da Europa, de lançarmos as bases de uma cultura verdadeiramente
nacional, verdadeiramente autêntica, ele só poderá consistir numa coisa: no
esforço de examinar com olhos brasileiros os produtos que nos chegam de fora.
Ao lermos as apreciações que os nossos estudiosos fazem do fenômeno europeu que
mais interessa à compreensão da nossa história intelectual, isto é, o
Romantismo francês do século XIX, experimentamos invariavelmente a impressão de
que temos diante de nós, traduzida para o português, uma página da história
literária da França escrita por um francês. Não nos ocorre jamais a ideia de
que os franceses sejam talvez os piores juízes dos acontecimentos em que eles
mesmos estiveram envolvidos e que nós, brasileiros, do fundo da nossa
insignificância, talvez tenhamos a dizer sobre a França qualquer coisa que os
próprios franceses ignoram. Não nos ocorre jamais a ideia de que para nós a
compreensão do fenômeno romântico se reveste de uma importância capital pois
constitui a totalidade da nossa tradição cultural, ao passo que para o francês,
ele não pode apresentar senão uma importância relativa, constituindo como
constitui apenas uma parcela de seu imenso passado cultural. Sem confiança em
nós mesmos, receosos de proferir sobre a situação cultural da França do século
XIX palavras que não recebessem a aprovação da crítica de Paris, realizamos sem
o menor proveito um certo número de análises sobre as nossas relações com o
velho mundo. O intuito de tais análises é, naturalmente, intensificar a
consciência de nossas peculiaridades nacionais. Mas incapazes que somos de
discordar daquilo que os franceses pensam de si mesmos nos tornamos com isso
incapazes de ver donde viemos e em que sentido poderão se orientar nossos
esforços de desenvolvimento cultural. É de uma tal situação de desnorteamento
que surgem esporadicamente no nosso meio movimentos de rebelião contra o
espírito europeu e a ideia manifestamente ingênua de que toda cultura importada
é necessariamente um mal.
O francês que não se sentir em harmonia interior com o clima espiritual
do seu país no século XIX, pode se refugiar no Século das Luzes, nos trágicos
do século XVII, em Pascal, em Descartes, em Rabelais, em Montaigne e quantos
outros? Toda cultura gótica e romântica está a seu dispor. Não constitui assim
para seu espírito uma necessidade indeclinável instaurar um processo contra o
Romantismo francês, caso tenha dúvidas sobre o caráter positivo ou inofensivo
deste fenômeno. Mas para nós brasileiros, o problema se apresenta de maneira
inteiramente diferente. Se o Romantismo francês do século XIX não representou
um momento culminante da história espiritual da França e da Europa, se pelo
contrário, há razões para supor que se trata efetivamente de um período de
empobrecimento intelectual e moral, a que conclusões negras e pessimistas não
nos poderá levar legitimamente uma tal constatação? É indubitavelmente
deprimente pensar que toda nossa tradição cultural possa ter resultado de um
contato com fenômeno tão negativo. Para o destino da nossa inteligentsia o problema do Romantismo francês é, por conseguinte,
uma questão de vida ou de morte. Não nos basta divagar sobre a alma romântica,
sugerir entre outras coisas que todos os franceses, todos os europeus haviam
sido no século XIX românticos (o que não é verdade) e que portanto era natural
que nós também, estimulados pelo exemplo geral, nos tivéssemos tornado
românticos. O problema tem um alcance sensivelmente maior pois de uma solução
verdadeiramente real que lhe possa ser dada dependerá em grande parte o destino
da nossa cultura.
Mas em que sentido se pode dizer que os franceses são maus juízes dos
acontecimentos em que eles próprios estiveram envolvidos? A todos os povos
naturalmente uma crítica do mesmo gênero poderia ser endereçada. Mas o caso da
França é diferente. Tendo exercido no século XVIII uma hegemonia intelectual
incontestável sobre toda a Europa, dir-se-ia que encontra ainda hoje
dificuldades em renunciar aos privilégios decorrentes dessa situação de liderança.
É um fato curioso mas inegável que a França continuou no século XIX, como continua
ainda no século XX, a agir como se as outras culturas nacionais lhe devessem
respeito e obediência.
Uma tal atitude espiritual se justifica em parte. A França evidentemente
não é mais, nem foi no século XIX, a nação culturalmente mais importante da
Europa. Mas há no espírito de seu povo um traço curioso, uma pressa, uma
impaciência de transformar em produto literário, em forma artística definitiva,
ideias, muitas vezes não inteiramente assimiladas, o que faz desse povo a nação
exportadora de cultura por excelência, a nação que parece elaborar cultura,
menos pelos feitos internos que possa produzir do que pela irradiação e pela
glória que possa conferir ao nome da França. Não fazemos essa asserção de modo
impensado e leviano. Basta considerar um momento a evolução do espírito francês
ao longo dos séculos, para perceber a rapidez com que ele assimila novas ideias
e a facilidade com que repudia o seu passado imediato. Só na França poderia ter
surgido um pensador como Descartes, possuidor da ambição de criar uma
metafísica sobre bases inteiramente novas. Só na França uma literatura clássica
poderia ter surgido em menos de dois séculos num ritmo vertiginoso de
crescimento que seria impossível sem o esquecimento de uma cultura gótica europeia,
lentamente elaborada e ingratamente abandonada. Só na frança teria podido
emergir um ideal racionalista, isto é, um ideal de verdade baseado unicamente
na clareza, na nitidez, na distinção dos conceitos. As formas que resultam
deste antitradicionalismo, desta impaciência com o passado cultural imediato,
tem naturalmente uma qualidade estimulante, um sabor de novidade que as torna
particularmente atraentes. E não deve constituir para nós motivo de surpresa o
fato de que após haver a Europa reverenciado o fulgor do espírito de Voltaire e
o calor da paixão de Rousseau, Portugal por seu turno, e o Brasil a uma
distancia respeitosa, se tenham deixado vencer pela sedução das ideias que a
França elaborava.
O Romantismo francês foi um movimento de libertação de formas por demais
estreitas — lemos nos compêndios de literatura — foi uma vitória do Sentimento,
da Emoção contra a Razão, um triunfo do eu subjetivo sobre o mundo objetivo, um
desejos de espaços livres, uma nostalgia de terras distantes e de épocas
longínquas. Tudo isso e mais ainda que no mesmo diapasão se possa dizer a
respeito, parece, singularmente inadequado quando se considera a
impossibilidade de decidir segundo tais critérios se uma obra é ou não
romântica. Como classificar, por exemplo, os romances de um Flaubert? Pode-se
em são juízo decidir que eles escapam às características da arte romântica? Os
compiladores de histórias literárias se apressarão naturalmente a informar que
Flaubert não foi um romântico mas um naturalista, como Zola foi um realista,
como Proust um criador do romance psicológico, etc.,etc. Mas colocado em tais
bases o problema perde sua importância, transforma-se num mero esforço de
catalogação de formas literárias. Enquanto não pudermos distinguir o espírito
romântico das diversas escolas românticas ou não que nele se inspiraram;
enquanto não compreendermos que o fenômeno romântico constitui um acontecimento
espiritual de magnitude incomensurável com manifestações literárias e
artísticas, tais como o naturalismo, o simbolismo, o impressionismo, o
realismo, etc., etc.; enquanto não soubemos separar o essencial do acessório
não estaremos preparados para abordar com eficácia o problema que ora nos
ocupa.
No Romantismo inglês ou alemão os laços que unem o século XIX ao estetismo
do Renascimento italiano são extremamente claros e constituem por assim dizer o
núcleo a partir do qual o fenômeno romântico pode ser interpretado e entendido.
Mas no Romantismo francês esses laços estão dissimulados pela interposição do
Século das Luzes e pelo caráter de oposição ao racionalismo que constitui sua
nota principal. É essa circunstância que explica o fato de sermos algumas vezes
levados a identificar o aparecimento na França de uma obra de índole
naturalista, realista ou positivista com a definitiva liquidação do espírito
romântico.
Na realidade esse espírito tem revelado uma extraordinária capacidade de
recuperação e, depois de cada golpe que se julgaria mortal, levanta-se ligeiro
como um gato possuidor de sete fôlegos pronto a resistir aos novos assaltos
pelos quais se desabafa a impaciência da inteligência francesa em face do seu passado
imediato. Naturalismo, realismo, positivismo, simbolismo, dadaísmo, cubismo, abstracionismo
— todas essas tendências aparentemente tão hostis ao espírito romântico
revelaram-se até hoje incapazes de liquidar o monstro que renasce sempre,
vivaz, sutil, insidioso, como se a França definitivamente não pudesse mais se
separar da sua companhia. Um tal estado de coisas cria uma certa confusão e
estabelece em torno do conceito de romantismo uma enorme imprecisão. Mas a
conclusão a que à vista de um tal fato chegam alguns estudiosos — a noção de
que o romantismo é um fenômeno de todas as épocas — equivale na realidade a uma
demissão, a uma confissão de incapacidade, ao reconhecimento de uma frustração
no esforço de compreensão de sua essência mais profunda.
O Romantismo na França se caracteriza sobretudo como uma reação, como uma
oposição ao racionalismo do Século das Luzes. Para bem compreendê-lo por
conseguinte, precisaríamos em primeiro lugar procurar elucidar a significação
estética do racionalismo francês para depois então decidirmos de que maneira o
século XIX diferenciou-se do seu predecessor e em que medida o fez. À primeira
vista poderia se ter a impressão de que a ideia do Belo, que com o Renascimento
italiano se havia emancipado da ideia do Bem, vê se obrigada na estética do
racionalismo a voltar a uma nova servidão, a aceitar agora a autoridade da
Verdade. “Rien n’est beau
que le vrai”, proclama Boileau nessa ocasião de grande fermentação
espiritual e esta frase que sintetiza de uma maneira perfeitamente justa as
aspirações estéticas do século XVIII parece marcar uma nova fase, uma nova
etapa no desenvolvimento das ideias da Europa sobre o Belo. Mas se nos
lembrarmos do que foi dito no capítulo anterior sobre o caráter ilusório da
autonomia da Verdade, se refletirmos além disso sobre a ambiguidade dos
conceitos que no século XVIII procuravam legitimar a noção de uma Verdade
autônoma — conceitos que oscilavam continuamente entre o apriorismo de Descartes
e o empirismo dos ingleses –— se considerarmos esses vários aspectos,
chegaremos facilmente a perceber que uma tal submissão, uma tal subordinação do
Belo à Verdade era falsa, era ilusória pelo motivo de que era falso, de que era
ilusório o caráter autônomo dessa última. A noção de um Belo verdadeiro
dependia então da identificação da Razão com a Natureza, pois era esse natural-racional
que deveria constituir a matéria-prima do artista racionalista. Mas se em
teoria a Razão era entendida como uma das manifestações da Natureza, na prática
ela se afirmava como um elemento antagônico, como uma força essencialmente
antinatural. Não era sobre uma Natureza identificada com a Razão que a arte dos
séculos XVII e XVIII trabalhava, mas sobre uma Natureza modificada por
elementos racionais que lhe eram antagônicos, por forças racionais antinaturais,
como as manifestadas pelas convenções e pela civilização. E o que víamos então
acontecer? Era de fato a uma Natureza já modificada por esses elementos
convencionais, isto é, por uma certa ideia do Belo que a atividade estética
deveria se subordinar. Nessa camuflagem reside o segredo da estética
racionalista. Confiamos em que essas breves indicações sejam suficientes para
mostrar como era ilusório o princípio estético de uma subordinação do Belo à
verdade — como na realidade a estética racionalista, se não em teoria pelo
menos na prática, adotava o mesmo ideal da autonomia do Belo que o Renascimento
italiano havia elaborado.
E a reação romântica do século XIX? Determinou ela alguma modificação
profundo no equacionamento do problema? Para nós que já podemos examiná-la com
um certo recuo para nós, sobretudo, que não sendo franceses podemos situar com
desenvoltura o problema do romantismo num quadro mais amplo do que o da França,
no conjunto de ideias que determinaram a vida espiritual da Europa no século
XIX — para nós que dispomos de um posto de observação tão favorável, torna-se
claro que o Romantismo francês com todo o seu exagero de atitudes, com toda a sua
denúncia do próprio passado intelectual imediato, nada mais fez do que herdar
da estética racionalista a noção de uma ilusória subordinação do Belo à
Verdade, concebida ilusoriamente como autônoma. A única diferença a assinalar,
diferença que não diz respeito aos aspectos mais essenciais do problema, reside
na noção de Verdade que os românticos elaboraram. A Verdade racionalista havia
sido uma Verdade ao mesmo tempo natural e racional, uma Verdade em que se
identificavam os conceitos de Natureza e de Razão. Para os românticos essa
identificação é ilegítima. Para eles a Razão pertencia ao domínio do
Convencional; fora por justamente por não distinguir entre Convenção e Natureza
que segundo eles os seus predecessores imediatos haviam podido atribuir à Razão
a posição privilegiada a que só a Natureza tem direito. Mas essa Natureza que
expulsara a Razão de sua companhia não queria ocupar sozinha o trono da
Verdade; e por isso não hesitara em compartilhá-lo com as forças do Sentimento
e da Emoção (3).
Vemos assim como no Romantismo francês a noção de Sentimento adquiriu
foros de verdade autônoma através de sua associação à noção do Natural. A Razão
é destituída de seus privilégios e o princípio ético que ela havia ignorado
reaparece agora ocasionando uma impressionante inversão de valores. Antes, o
domínio desse princípio sobre o Sentimento e a Natureza era incontestável.
Agora, é na posição humilhante de uma completa subordinação a essas forças que
um tal princípio volta à cena. O Sentimento e a Natureza sobre os quais havia
sempre exercido o seu controle são agora a instância a que deve obediência. O
homem natural é bom, proclama Rousseau, não sem hesitações (4). A partir de um
tal momento deixa de existir para a França a possibilidade de uma cultura
baseada sobre a ideia transcendente do Bem. Indo mais longe que a Itália do
Renascimento, o movimento de emancipação que realiza parece querer deitar por
terra todo o edifício da cultura para reconstruí-lo minunciosamente a partir de
dados naturais e bons. Há nesse sentido um paralelo a fazer entre Descartes e
Rousseau, a primeira certeza do reformador romântico sendo a bondade do homem
natural. Mas se Descartes respeita a ideia do Bem transcendente garantida pela
autoridade da Igreja de Roma, Rousseau foi levado a englobar no mesmo
desrespeito catolicismo e protestantismo. Com efeito, a sua tese se encontrava
em contradição flagrante com a noção cristã do pecado original. O Romantismo
francês, de que Rousseau foi o pai espiritual, nasce assim sob o signo de uma última
rebeldia, de uma emancipação do princípio ético transcendente sob qualquer
forma em que ele se apresente; e essa emancipação se manifesta não somente
através do alheamento e da indiferença como no caso do Renascimento italiano,
ou da hostilidade vaga como no caso do racionalismo do Século das Luzes, mas
através de uma crítica precisa, de uma negação do caráter transcendente de um
tal princípio e de sua substituição por um princípio imanente e de inspiração
naturalista. Desde então a França está preparada para voltar-se para a Alemanha
e com Madame de Stäel recolher os frutos de uma cultura de base estetizante.
Rousseau havia liberado a França de Descartes, de Racine, de Boileau, de
Voltaire. Madame de Stäel torna-a agora consciente da existência dos irmãos Schlegel,
de Schiller, de Goethe e de tantos outros alemães vencidos pela sedução da
cultura italiana.
De tudo quanto dissemos nas páginas precedentes parece derivar a
impressão de que o índio brasileiro pouca interferência teve na elaboração das
teorias de Rousseau e no consequente desenvolvimento das ideias do Romantismo
francês do século XIX. É fácil estabelecer relações e indicar afinidades entre
os fatos e as ideias mais diversas quando não se está interessado em descobrir
o sentido próprio de cada um desses fatos ou ideias — basta escolher os seus
aspectos mais característicos, os lados em que se revelem as suas qualidades
mais comuns e relacioná-los. O resultado obtido terá não poucas probabilidades
de manifestar uma certa coerência — o parentesco íntimo, a conformidade secreta
que se desejava assinalar emergirá satisfatoriamente ao horizonte visual como
um aspecto necessário.
A relação que alguns dos nossos estudiosos (5) julgam ter discernido
entre a descoberta do índio brasileiro e a elaboração da tese da bondade do
homem natural parece pertencer a esse sistema de comparações fáceis que nenhuma
luz trazem aos pontos obscuros de um problema. Apesar de certas tribos de
índios brasileiros terem manifestado uma bondade natural, apesar de muitos de seus
membros terem sido levados à Europa e lá exposto à contemplação admirativa de
uma civilização sofisticada, a teoria da bondade do homem natural jamais teria
aflorado à consciência de um europeu do século XVIII, se uma crise extremamente
grave não estivesse naquele período abalando os fundamentos éticos da cultura
do velho continente. Por outro lado, a influência que as ideias de Rousseau
exerceram sobre a cultura brasileira nada tem a ver com a suposta bondade
natural do homem brasileiro. É significativo que já se tenha procurado no Brasil
sustentar uma tese tão pouco defensável quanto essa da nossa bondade natural e
que em tal circunstância o nome de Rousseau tenha sido evocado. Na realidade, o
que caracteriza a personalidade do homem brasileiro é não a bondade, como quer
Cassiano Ricardo, ou a cordialidade como pretendeu, pelo menos durante algum
tempo, Sérgio Buarque de Holanda. Um outro traço deverá aqui orientar nossa
pesquisa, traço que se liga a Rousseau de modo apenas indireto e que a partir
do século XIX começou a se acusar entre nós de forma cada vez mais acentuada,
revelando o progresso que a influência de uma cultura de inspiração
renascentista realizava nas nossas atitudes e na nossa mentalidade — quero
referir-me ao estetismo, à tendência estetizante, à compreensão da vida
realizada de um ponto de vista meramente estético.
No debate de ideias travado entre o senhor Cassiano Ricardo e o senhor
Sérgio Buarque de Holanda em torno das opiniões manifestadas por esse último a
respeito do homem cordial, um dos aspectos mais curiosos é a afirmação feita
pelo autor de Raízes do Brasil de que “pela expressão cordialidade se
eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas a
que parece inclinar-se o senhor Cassiano Ricardo quando prefere falar em
bondade ou em homem bom”. Uma tal maneira de apresentar o problema é
extremamente reveladora das tendências intelectuais desse investigador. Sem
dúvida o senhor Buarque de Holanda entende fazer obra de sociologia e de
ciência e se esforça por situar o fenômeno da cordialidade brasileira de
maneira inteiramente objetiva. Mas justamente, é a crença na viabilidade de um
tal propósito que é indicativa. A cordialidade ou empregando as palavras do
nosso autor, “a lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade” ou são
virtudes éticas ou deixam de ter uma ignificação positiva. A circunstância de
estarem vinculadas à influência ancestral ativa e fecunda dos padrões de
convívio humano, informados nos meios rural e patriarcal brasileiro, não deveria
eximi-las da necessidade de possuir uma qualidade ética. A circunstância de não
significarem boas maneiras, civilidade, onde, segundo o senhor Buarque de
Holanda, “Há qualquer coisa de coercitivo”, qualquer coisa que “pode
exprimir-se em mandamentos e sentenças”, qualquer coisa em que se revela “um
decisivo triunfo do espírito sobre a vida”; o fato de no homem brasileiro
cordial a vida em sociedade ser de certo modo “uma verdadeira libertação do
pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em
todas as circunstâncias da existência”; o fato dessa vida reduzi-lo “cada vez
mais à parcela social, periférica” e das indicações acima feitas constituírem,
com relação ao fenômeno da cordialidade brasileira, verdades que ninguém pensaria
em contestar, não nos desobriga a indagar se esse fenômeno tem ou não raízes
éticas. A dificuldade do senhor Buarque de Holanda parece consistir em que no
seu modo de entender, a atitude ética está necessariamente ligada a qualquer
coisa de coercitivo, a mandamentos e sentenças, a um triunfo do espírito sobre
a vida. A afirmação do ético implicaria para ele uma negação das qualidades
emocionais do fenômeno. Apesar do seu desejo de ser imparcial e objetivo, e de
fazer obra de sociologia e de ciência, o senhor Buarque de Holanda ao ver nas
condições sociais criadas pelo patriarcado rural brasileiro a origem do
fenômeno da cordialidade, manifesta claramente o fato de estar desprovido do
equipamento espiritual necessário para situar aquele fenômeno dentro de um
contexto geral de cultura. De uma certa maneira as suas opiniões fazem lembrar
as de H. Keyserling (6), que no seu livro sobre a América do Sul assinala, ao
mesmo tempo que a ausência de um princípio espiritual na cultura do nosso
continente, a presença, sobretudo no Brasil, do fenômeno da delicadeza, cuja
descrição se assemelha de modo notável à do fenômeno da cordialidade estudado
pelo senhor Buarque de Holanda. Também Keyserling parece pensar que delicadeza (compreendamos
cordialidade) e ausência de espiritualidade são fenômenos correlatos, mas a sua
análise não se detém na pura constatação dessa ausência e procura compreender o
contexto cultural em que se situa o fenômeno da delicadeza. É a ideia do Belo
que a seu ver determina o sentido de um tal contexto. Keyserling por
conseguinte responde pela negativa à questão de saber se o fenômeno da
delicadeza tem ou não raízes éticas. Há entretanto entre a sua atitude e a do
senhor Buarque de Holanda a seguinte diferença: enquanto que para este último a
questão não tem sentido, para o filósofo viajante ela é de importância capital
e constitui mesmo um elemento fundamental para a sua compreensão da cultura do
continente sul-americano.
Ora, perguntamos, por que uma tal questão parece ao senhor Buarque de
Holanda desprovida de importância? Por que não se lhe afigurou indispensável
situar o fenômeno da cordialidade brasileira dentro de um contexto geral de
cultura? Uma única resposta parece cabível no caso: se esse contexto não
emergiu ao seu horizonte é porque ele próprio se situava dentro dos contornos
de um tal contexto. Em outras palavras: se o senhor Buarque de Holanda com a
expressão cordialidade eliminou deliberadamente os juízos éticos e as intenções
apologéticas da sua concepção do homem brasileiro e se, por outra parte, não
compreendeu que a segunda alternativa, a possibilidade de fazer intervir o
elemento estético na sua interpretação do problema constituía a solução que
então se impunha, a razão disso só poderemos encontrá-la no fato de estar o
autor de Raízes do Brasil de tal modo identificado com uma maneira
estetizante de compreender o mundo que lhe falta o recuo necessário para
distinguir no fenômeno da cordialidade brasileira a manifestação inequívoca de
uma cultura determinado pela ideia do Belo. Se a cordialidade do homem
brasileiro não lhe parece indissoluvelmente ligada a um tipo de cultura
determinado pela ideia do Belo é porque a noção de um tal tipo de cultura não
emergiu ainda no nível do seu horizonte visual. E isto quer dizer que ele
próprio é um representante desse tipo de cultura e, por conseguinte, o
considera como o único tipo possível e imaginável.
Mas a questão que estamos considerando encerra complexidades e sutilezas
a que convém agora atender. Podemos dizer que foi a tendência estetizante do
espírito do senhor Buarque de Holanda que o levou a negar um sentido ético à
disposição de ânimo do homem cordial brasileiro; ou não terá sido, pelo
contrário, a tendência estetizante dessa disposição de ânimo que se impôs ao
seu espírito imparcial e objetivo? O autor de Raízes do Brasil vê no
convívio humano das antigas famílias rurais e patriarcais a origem da virtude
que estamos estudando; e como a evolução da sociedade brasileira se orienta
cada vez mais no sentido da desruralização e da despatriarcalização, a
existência de uma tal virtude lhe parece ameaçada. Examinemos então as ideias
sobre a cordialidade professadas pelo senhor Cassiano Ricardo. A seu ver
trata-se de uma virtude mais antiga, uma virtude que começou com os primeiros
degredados e que se afirma cada vez mais na vida da sociedade brasileira.
Somente o nome que lhe deve ser atribuído é bondade e não cordialidade. O
senhor Cassiano Ricardo não receia as ressonância éticas de um tal termo. O
homem brasileiro é bom. A contribuição brasileira para o mundo da cultura é a
bondade. Na história do Brasil encontraremos vários exemplos capazes de
ilustrar esta verdade.
Basta refletir um momento sobre a enormidade de uma tal asserção para
compreender que ela só poderia ter se verificado dentro do clima do estetismo
mais pronunciadamente romântico. Nesse clima não é apenas o investigador que se
debruça sobre o fenômeno a estudar que está na origem de uma noção tão
obviamente utópica. O próprio fenômeno estudado deve ter colaborado para a construção
de uma tal utopia. Se o homem brasileiro não adotasse de modo tão assíduo e
sistemático a atitude de homem bom, seria pouco crível que um escritor da
competência do senhor Cassiano Ricardo se tivesse permitido formular a tese da
bondade brasileira.
Nas análises que sucederão falaremos do brasileiro como de um tipo humano
que sem pertencer à classe dos intelectuais está suficientemente próximo dessa
classe para se deixar influenciar por ideias de cultura. De uma maneira geral
ele parece ser em nossos dias um homem que se contempla a si mesmo e que
contempla os outros como se o mundo fosse um palco e como se a sua vida devesse
ser destituída de sentido, caso não pudesse se constituir como um espetáculo a
que assistissem um certo número de pessoas assíduas e atentas. Esse traço que
se encontra certamente em outros povos que como nós tenham sido sujeitos à
influência do estetismo, se apresenta naturalmente na nossa psicologia em graus
extremamente variados, indo de um simples desejo de não deixar passar desapercebido
um mérito, uma ação, uma qualidade ou uma intenção louvável, às manifestações
excessivas de um exibicionismo sem pudor ou de um cabotinismo indiferente às
exigências mais rudimentares da modéstia.
O brasileiro de nossos dias é pouco sensível às qualidades da alma que
são menos óbvias, às qualidades que são, por assim dizer, invisível. Escapa-lhe
completamente o sentido valioso de um gesto de reticência, de uma palavra não
proferida, o valor moral associado à repressão silenciosa de um movimento de
egoísmo, de vaidade ou de orgulho. A exteriorização dos sentimentos parece
constituir para ele a garantia única de tais sentimentos existem. Essa psicologia
de extrovertidos poderia naturalmente, através de explicações de um cunho
supostamente científico, ser justificada à lua das condições raciais e
somáticas do povo ou climatéricas do país. Mas na verdade é a compreensão do
mundo como um palco que leva o brasileiro a uma exteriorização excessiva de
seus sentimentos, exteriorização que, muitas vezes, não é possível levar a
efeito sem uma certa insinceridade. Os abraços prolongados, a palmada leve nos
ombros, as expressões exageradas de louvor e entusiasmo, a facilidade com que
proclama sua amizade por tais ou quais pessoas que conhece apenas — todos esses
traços parecem, à primeira vista, poder ser explicados por um fundo
irreprimível de sua natureza generosa. Mas guando se constata que há um outro
verso da medalha, quando se verifica que aos abraços prolongados, à palmada
leve nos ombros podem suceder sem motivo aparente manifestações de descaso pelo
homem que acaba de abraçar e que já agora se afasta; quando se compreende que
as expressões exageradas de louvor e de entusiasmo se aplicam indistintamente a
gregos e troianos; quando finalmente se consigna que na ausência dos amigos da
pessoa por quem professou uma tal calorosa amizade não raro encontra a
oportunidade de atribuir-lhe defeitos de uma extrema gravidade — quando se
verifica tudo isso, a ideia de uma bondade, de uma generosidade ou de uma
cordialidade natural do homem brasileiro sofre um certo abalo. Dir-se-ia que a
verdadeira mola desses gestos de aparência tão espontânea e inocente fosse um
cálculo maquiavélico, uma intenção egoísta e deliberada. Num país como o nosso
onde tudo se faz por amizade, seria como efeito absurdo, para quem quer
prosperar, criar deliberadamente limites à manipulação de um tal sentimento,
fazer distinções, estabelecer critérios de seleção na escolha de amigos. O mais
sensato naturalmente seria desencadear um processo inflacionário da amizade que
nos permitisse ter sempre à mão a moeda capaz de promover nosso interesse. Daí
os abraços prolongados, a palmada leve nos ombros, a proclamação de amizade
etc., etc.
Mas é evidente que uma tal interpretação seria igualmente injusta. O
brasileiro não é uma ilustração da bondade natural do homem de Rousseau, mas
tampouco um representante típico da humanidade tal como a imaginou Maquiavel. A
sua concepção de bondade, de generosidade, de cordialidade que não é nem falsa
nem sincera — é estética — isto é, consiste numa apreensão dos valores bondade,
generosidade, cordialidade que não é suficientemente existencial para que esses
valores se traduzam em atos verdadeiramente bons, generosos ou cordiais.
A influência do ideal estetizante sobre a vida brasileira assume também
outros aspectos. O nosso culto da inteligência é um dos mais impressionantes
entre eles. Dificilmente se encontrará país em que o “herói da inteligência”
tenha mais prestígio do que no nosso. O nosso conceito de inteligência
corresponde, ponto por ponto, ao conceito de virtu do homem do
Renascimento italiano: é a qualidade que permite ao homem de realizar grandes
façanhas e de conquistar assim a glória. Como o italiano do Renascimento, o
brasileiro de nossos dias se preocupa pouco com a opinião que se possa ter
sobre o seu caráter — uma insistência excessiva sobre os aspectos positivos
desta parte de sua personalidade poderá mesmo desgostá-lo porque soará aos seus
ouvidos como uma palavra de louvor não destituída de uma certa ambiguidade. Ter
caráter e não ser inteligente são duas coisas que no Brasil têm quase o mesmo
significado. E é evidente que ser inteligente, por sua vez, não está longe de
significar ser desprovido de caráter.
Uma tal concepção da estrutura do nosso espírito acarreta consequências
desastrosas. As virtudes intelectuais que guardam uma certa relação com as
virtudes morais: honestidade, probidade, seriedade, perseverança, prudência,
modéstia, etc., etc., não nos parecem capazes de promover o progresso intelectual
e são não raro enquadradas como deficiências certas. Por outro lado, para ser
um “herói da inteligência”, um homem no Brasil precisa ser rápido, hábil,
astuto, brilhante — qualidades essas que se referem não ao objetivo da
conquista intelectual, mas ao efeito produzido sobre a audiência, à impressão
de inteligência causada, ao espetáculo estético oferecido. Poder-se-á dizer que
tais características são o resultado do estado incipiente de nossa cultura e
não o fruto do estetismo. Mas os que assim pensam, deixam sem explicação o fato
de que em outros países tão novos quanto o nosso a inteligência está longe de
gozar dos mesmos privilégios. O povo anglo-americano, por exemplo, terá
possivelmente tendência a reverenciar heróis. Mas será então para os heróis do
caráter que irá sua preferência. Na realidade precisamos distinguir os aspectos
da nossa cultura que resultam do seu estado incipiente daqueles que derivam de
uma influência que já teve o tempo de se exercer e de produzir frutos
verdadeiros: nossos exageros retóricos, nosso verbalismo, nossa dependência da
opinião de autores estrangeiros são fenômenos de imaturidade e como tal poderão
ser superados um dia. Mas o nosso culto da inteligência é uma atitude que já
criou raízes na alma coletiva, é uma ideia brasileira que poderá inclusive se
fortalecer, se consolidar ainda mais com o processo de amadurecimento da nossa
cultura.
Uma tal afirmativa, se dirá então, importará em reconhecer que o Brasil
já dispõe de ideias próprias e que a crença na existência de uma cultura
nacional autêntica não é tão absurda quanto se afirmava a princípio. Num exame
das ideias que influenciaram a vida espiritual do país, seria assim
impatriótico investir justamente contra aquela que excepcionalmente pode criar
raízes no solo nacional e transformar-se num produto inteiramente assimilado.
Com efeito, encarada de um tal ponto de vista, a questão parece simples. Se o
estetismo é um ideal que se estranhou na realidade brasileira, por que não
aceitá-lo de boa consciência e fazer dele a forma, o estilo da alma nacional? Essa
sugestão que muita gente no Brasil consideraria como a manifestação da
quintessência do bom senso encerra entretanto o grave inconveniente de ser ela
própria uma profissão de fé estetizante e de estar, por isso, desvestida da
autoridade necessária para se pronunciar sobre os problemas do estetismo. Nela
o que se reflete é a pressa, é a impaciência de se encontrar uma forma, um
estilo para a alma brasileira. Nenhuma preocupação revela com a possibilidade
de que essa forma, esse estilo ajam de modo desastroso sobre a substância a que
se os quer consorciar; nenhuma preocupação revela com a circunstância de que
através de um tal consórcio possam talvez se corromper as energias do espírito
nacional. Para uma tal sugestão o essencial é que esse espírito seja bem
brasileiro e que seja reconhecido por todos como tal.
O “homem inteligente” no Brasil praticaria um gesto de consequências
incalculáveis renunciando aos privilégios que decorrem do fato da sua
inteligência. Seria este um ato de autêntico patriotismo. Fazer-nos respeitar
pela modéstia, pela prudência no exprimir nossas opiniões, pela honestidade,
pela probidade no defender nossas ideias, mesmo aquelas cuja defesa fosse
diretamente contrária aos nossos mais caros interesses — que ideal sadio para a
vida brasileira! Mas não entretenhamos ilusões, a coisa não oferece atrativos
para a nossa gente. Só há um caminho para quem não receia se comprometer
entrando em luta aberta contra a tirania do “homem inteligente” no Brasil: é
procurar mostrar que ele não é tão inteligente quanto pensa. Um tal
empreendimento exigiria naturalmente qualidades tão numerosas e tão diversas
que já o fato de julgá-lo necessário poderia parecer de uma petulância
inconcebível. Seria indispensável em primeiro lugar possuir-se todas as
qualidades, todas as faculdades do “homem inteligente” — rapidez, habilidade,
astúcia, brilho — faculdades que figurariam inevitavelmente entre as armas
escolhidas para o torneio organizado a fim de decidir que valor, que símbolo da
vida espiritual deveria determinar o sentido da cultura brasileira. Mas seria
também desejável que o contendor do “homem inteligente” acreditasse em qualquer
coisa que fosse mais do que a inteligência — qualquer coisa que entre outros
méritos tivesse o de protegê-lo contra um sentimento de vanglória, caso o
desenrolar do combate se decidisse em seu favor. Essa qualquer coisa não é
suscetível de uma definição precisa. Haveria nela um aspecto ambíguo, um lado
cético e negativo que permitiria, ao contendor que imaginamos, ver o lado
cômico, ridículo do “homem inteligente” e que o incitaria a uma série de
reflexões irônicas e irreverentes. Mas haveria também um aspecto mais grave,
uma profissão de fé em valores espirituais que a inteligência por si só seria
incapaz de apreender. Esse segundo aspecto evidentemente não poderia ser
revelado antes de ser dada aos espectadores do “torneio” ampla oportunidade
para julgar da destreza com que ambos contendores houvessem manejado as armas escolhidas.
Mas depois, e caso a sorte se tivesse decidido contra o “homem inteligente”,
uma mudança de “tom” nos argumentos empregados se tornaria necessária.
Elementos da vida espiritual que a consciência nacional normalmente não
registra, de tal modo eles lhe parecem sem importância, seriam subitamente
promovidos e elevados a uma indignidade nova; e qualidades morais que nos
pareciam incapazes de transpor o âmbito estreito do nosso catecismo de infância
se revestiriam de repente do glamour associado aos requintados métodos
utilizados nas mais sutis pesquisas da inteligência.
Tudo isso naturalmente pertence ao domínio da divagação e do sonho, mas
os sonhos constituem, por vezes, o ponto de partida para a construção de
realidades. Não cremos que já existam no Brasil pessoas capazes de enfrentar o
“homem inteligente” na base que indicamos. Mas quem sabe? Talvez já existam
pessoas que pensam como nós que o “homem inteligente” no Brasil vai se
transformando num tirano insuportável e que é preciso que ele seja destronado.
A dificuldade talvez resida na circunstância de não desejarem tais pessoas
exprimir uma opinião que pudesse ter como consequência o fato de lhe serem
atribuídos motivos de ressentimento. No Brasil quando num grupo de amigos se
comenta a moralidade de uma pessoa e alguém insiste sobre os aspectos
especialmente negativos de suas atitudes éticas, haverá sempre um outro para
defendê-la com a fórmula mágica “mas ele é muito inteligente”, que como por
encanto arrefecerá o entusiasmo catilinário do primeiro. A má consciência do
caráter e a boa consciência da inteligência tornam no Brasil tímidas e
reticentes as pessoas mais sensíveis aos valores morais. Uma das anedotas que
mais sucesso faz no Brasil é a história da mulher que vai ao confessionário e
declara ao padre estar sendo devorada pelo pecado do orgulho. “Mas qual é a
razão desse orgulho?” pergunta-lhe o padre. “Você é bonita? Você recebeu uma
boa educação? Você é rica? Você é inteligente?” e como para cada uma dessas
perguntas a respostas fosse negativa, o padre termina por se impacientar e
declara brutalmente que a sua penitente nada tem de orgulhosa, que ela é
simplesmente estúpida. Nesta anedota está expressa da maneira mais clara a
crença do brasileiro de que o pecado capital do espírito não é o pecado moral
mas o pecado da inteligência. O orgulho, esse sentimento tão primitivo e que em
outras terras pode desenvolver-se nos indivíduos menos favorecidos pela sorte,
nos parece irrisório se não for acompanhado de méritos, prendas ou talento. Não
só ele nos parece irrisório como temos mesmo dificuldade em acreditar na sua
realidade. A maneira pela qual o padre de anedota rejeita a hipótese do orgulho
mostra bem como para ele o sentimento não tinha existência real, não poderia
ser senão um pecado imaginário.
E não são só os pecados morais que nos parecem levar uma existência de
sombra. As qualidades morais também nos parecem participar desse mundo
desencarnado. De uma maneira geral poderíamos talvez dizer que as ideias
ligadas à noção de caráter parecem revestir-se entre nós de uma certa
irrealidade, dão a impressão de viverem uma existência de fantasmas. Quantas
vezes diante da menção de uma outra qualidade moral, feita por pessoa de vida
irrepreensível, não temos a sensação de estarmos ouvindo uma lição aprendida de
cor, uma lição articulada numa voz sem alma, numa voz de aluno que utiliza
métodos mecânicos de memorização! E por outro lado, com que calor, com que
entusiasmo, com que paixão não nos são muitas vezes descritas as realidades do
mundo intelectual, a lucidez de um homem, o seu domínio das palavras, a sua
perfeita articulação de ideias! No Brasil há pessoas que indagam com a maior
das seriedades quem seria o “homem mais inteligente do país”, como se a
inteligência fosse uma faculdade universal que pudesse se aplicar
indistintamente. Aos objetos mais diversos com uma igual eficiência. Por outro
lado, ninguém se preocupa em saber quem seria o homem mais íntegro do país. E
entretanto haveria mais razões para fazê-lo pois a integridade é uma virtude
autônoma que não depende desta ou daquela esfera de sua aplicação. Mas a
palavra não nos soa bem ao ouvido, um homem íntegro nos parece ser um moralista
sem inteligência e cheio de ressentimento contra o homem de talento, inclinado
a uma vida de descuidada boêmia.
O nosso entusiasmo pelos juristas, pelos cultores do Direito acentua
ainda mais essa disposição de espírito. Hoje se começa a notar entre nós um
certo arrefecimento nesse entusiasmo que tende agora a se desviar para as
ciências econômicas e sociais. Mas ele é ainda suficientemente forte para
merecer aqui a nossa atenção e, aliás, é pouco provável que venha a desaparecer
sem deixar qualquer espécie de vestígio. O Direito exerce sobre o nosso “homem
inteligente” uma atração irresistível. Seria talvez proveitoso determo-nos um
momento sobre este fato e procurar encontrar sua explicação.
Toda ciência tem o seu objeto próprio e o seu método particular de
investigação. A atitude reflexiva nos permite transformar qualquer método
científico em objeto de uma nova ciência que se constituiria como a teoria de
um determinado método, como por exemplo a teoria da indução, a teoria do
probabilismo, a teoria do apriorismo, etc., etc.
O objeto próprio da ciência do Direito é o conjunto de regras de direito
positivo que constituem o sistema jurídico de um país determinado. Para a elaboração
dessas regras o concurso de vários métodos científicos é necessário: em
primeiro lugar o método apriorístico sem o qual a ideia e Justiça não poderia
se exprimir através do preceito jurídico; em segundo lugar o método histórico
sem o qual as diversas maneiras de se manifestar essa ideia de Justiça nas
sociedades do passado não poderiam ser estudadas de modo a orientar o
pensamento jurídico no seu esforço criador; em terceiro lugar o método sociológico
sem o qual essa mesma ideia de Justiça não poderia ser aplicada às condições
concretas de um caso particular, numa sociedade determinada. É claro que nessas
breves indicações excluímos qualquer referência às intermináveis controvérsias
que dividem os juristas sobre qual seja a verdadeira origem do Direito. Os
autores que veem na ideia da Justiça uma explicação por demais sumária e que
preferem recorrer à Vontade de um Ser coletivo (como se essa Vontade pudesse se
afirmar em nome de outra coisa que não fosse Justiça), ao objetivo, à
finalidade do legislador (como se esse objetivo pudesse ser outro que a
Justiça) ou a qualquer outro elemento supostamente independente do princípio
moral — esses autores refletem apenas a situação de anarquia intelectual e
moral em que se encontrou o mundo ocidental quando as primeiras consequências
do desprestígio da autoridade da Igreja de Roma fizeram sentir sua influência
sobre a cultura europeia do século XVII.
A indicação dos métodos apriorístico, histórico e sociológico não esgota
entretanto a complexa realidade da regra de direito positivo. Há ainda um outro
elemento a considerar se quisermos compreender uma tal regra, mas esse elemento
não se situa dentro dos quadros da metodologia científica. Trata-se aqui não de
um método, mas de uma técnica e de uma técnica que escapa inteiramente ao campo
da ciência. Nenhuma atitude reflexiva poderá jamais transformar essa técnica em
objeto de uma nova ciência pois é de sua essência não depender de fatos e
verdades, mas ser o fruto da imaginação, da livre escolha, da habilidade e da
arte do jurista. A técnica jurídica que se caracteriza como um conjunto de
meios e processos mais ou menos artificiais destinados a adaptar o dado
apriorístico e o dado experimental de modo a tornar prática e eficiente a regra
de direito no meio social para o qual é elaborada — essa técnica jurídica que é
um artifício, um meio mais ou menos hábil e que dá inteira liberdade ao engenho
do espírito para criar o processo que seja mais prático, mais eficiente, suscetível
de melhores resultados — a técnica jurídica que faz parte integrante do processo
de elaboração da regra do direito positivo e, também por conseguinte, do objeto
próprio da ciência do Direito; a técnica jurídica, dizíamos, não pertence ao
domínio da ciência mas ao domínio da arte e introduz por isso na disciplina
jurídica um elemento de incerteza e de arbitrariedade que cabe ao espírito
científico eliminar, mas que muitas vezes se afirma através do entusiasmo
excessivo do jurista pelo engenho humano.
Ora, na atração exercida pelo Direito sobre o nosso “homem inteligente”
não é o aspecto ciência, mas o aspecto técnica o que mais o fascina. Ele se
sente transportado de entusiasmo diante da ideia de que existe uma ciência que
é também uma arte, uma ciência que não o tiraniza com critérios rigorosos de
análise e de pesquisa, mas que ao contrário oferece à sua habilidade, ao seu
engenho um vasto campo de experimentação e descoberta. Por isso ele afirma
gravemente que o Direito é uma disciplina de primeira ordem para o espírito,
uma escola de argúcia intelectual, de clareza conceitual, de articulação
sistemática. Por isso ele consegue discernir na estrutura da inteligência muito
mais do que existe realmente nela, qualidades de inventividade que pertencem
indubitavelmente a outras faculdades do espírito e que, a seu ver, se somariam
ao aspecto racional em virtude do qual pode ela ser utilizada como instrumento
de pesquisa científica. Mas a consciência de que a técnica jurídica é uma arte
e como tal obrigada a se submeter a uma disciplina rigorosa, sob pena de cair
no arbitrário — uma tal consciência não é nele suficientemente viva para
diminuir-lhe a satisfação causada pela ideia de que é possível mostrar engenho
sem deixar de ser cientista. Se lhe manifestássemos dúvidas sobre as virtudes
da ciência do Direito como disciplina formadora do espírito, se lhe disséssemos
que ela, pelo seu aspecto de técnica, representa a escola por excelência da
sofística e do falso humanismo, sem centro de referência ético, o nosso jurista
nos consideraria com estupefação e nos responderia provavelmente que muito pelo
contrário o Direito é extremamente afim da filosofia e da ética e que ainda
sobre essas últimas, possui a vantagem de abranger um aspecto técnico de efeitos
importantíssimos para a vida prática. Esqueceria assim que que a técnica
jurídica, longe de constituir um título de glória para o jurista representa,
exatamente, o ponto mais problemático de sua atividade e que é somente na
medida em que o seu espírito tiver sido bem formado por outras disciplinas
intelectuais é que ele se encontrará capacitado a aplicar o seu engenho, a sua
habilidade e a sua arte na pesquisa de soluções jurídicas sem desrespeito da
essência mesma da ideia de Justiça.
Podemos dizer sem exagero que num país como o nosso, de formação
incipiente, onde ainda estão por se consolidar não somente os princípios éticos
que informam a ciência do Direito mas as próprias disciplinas experimentais que
a alimentam, o desenvolvimento excessivo do espírito jurídico entendido como
exercício da técnica jurídica representa um mal enorme. No incomparável sucesso
econômico, intelectual e político que obtêm de ordinário nos nossos meios os
juristas de talento, o nosso homem inteligente vê uma promessa e uma confirmação:
promessa de um futuro idêntico para si mesmo, quando jovem e em começo de
carreira, e confirmação mais tarde, quando o sucesso é obtido, do valor
intrínseco de uma qualidade promotora de benefícios tão tangíveis. E é inegável
que se a nossa concepção da atividade intelectual como sendo o exercício de uma
arte autônoma deriva em grande parte da ausência entre nós de uma cultura ética
e da consequente apreciação de todos os valores do espírito através do prisma
do estetismo, o fato de o Direito ter constituído e continuar constituindo para
as elites cultas do país um instrumento de grande eficiência na conquista de
posições e privilégios — esse fato contribuiu e continua a contribuir
certamente para emprestar a uma tal concepção a aparência de uma verdade
indiscutível.
Notas
(1)
No Contrato social, Rousseau afirma
que o social é superior ao natural. Não é aqui o lugar de discutirmos as
contradições e incoerências do pensamento de Rousseau. Digamos, entretanto, que
o social, tal como concebe o pensador genebrino, dificilmente se realiza na
prática e que o mais comum é encontrá-lo sob uma forma pervertida que coloca o
homem em nível inferior ao da sua situação natural.
(2)
Ver Ordem e progresso de Gilberto
Freyre.
(3)
Os intérpretes de Rousseau que insistem
sobre o caráter racionalista de suas posições parecem antes de mais nada não
ter ideias muito precisas sobre o que se deva entender pelo termo “razão”. Em
todo caso eles admitem geralmente que a “razão” de Rousseau não é a de
Descartes.
(4)
A questão de saber se Rousseau acreditava
realmente na bondade do homem natural tem sido ocasionalmente debatida. O
problema não nos parece oferecer senão um interesse muito relativo. O fato de,
segundo Rousseau, existir no homem social possibilidades morais que o colocam
em plano superior ao do homem natural não torna menor o impacto que sobre a
cultura racionalista teve a sua famosa tese.
(5)
Ver O índio brasileiro e a Revolução
Francesa de Afonso Arinos
de Mello Franco.
(6)
H. Keyserling — Meditaciones
suramericanas.