segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Psicologia da mulher

Tobias Barreto


Notas ao fim do texto.
"A Alma da Mulher" - título original do autor, a propósito da conferência de A. Jellinek [1]. Texto de 1874/1881, in: Estudos alemães, de 1883, p. 7-35.


Introdução [2]
Julho de 1874

Adolf Jellinek é um distinto israelita alemão contemporâneo.

Os seus escritos e as suas prédicas, na sinagoga de Berlim, ocupam lugar de honra entre os produtos do gênero, e fazem que o proclamem um estilista perfeito e um brilhante orador: predicados adjacentes, ou superpostos a uma ciência sólida.

O trabalho que tenho presente e que vai ser o assunto deste artigo, não é de natureza apropriada a fornecer a medida, eu digo, toda a medida, do mérito do autor. É uma conferência feita, em 1872, no ginásio acadêmico de Viena, sobre a questão da mulher, encarada e esclarecida pelo lado psicológico. Facilmente compreende-se a impossibilidade, na qual devia achar-se o orador, de vazar em cadinho tão pequeno uma grande porção do ouro da sua mina. Todavia me parece que aí mesmo se podem ver a viveza e lucidez de um vasto espírito.

Falando na questão da mulher, não sei se posso contar com a disposição dos meus leitores para certa ordem de ideias, condensadas nessa frase, e que não são entre nós muito comuns. Porquanto é só de longe em longe que nos chega alguma notícia dos reclamos e protestos de ilustres representantes do sexo feminino, quer na Europa, quer na América, em prol dos seus direitos, desconhecidos e vilipendiados.

Entretanto, não há dúvida de que a mulher e suas relações domésticas e sociais formam um dos problemas superiores, que se debatem na atualidade. É digno de notar-se que, sendo uma das mais robustas propugnadoras da chamada emancipação do sexo a judia Fanny Lewald, célebre escritora e romancista da Alemanha, seja também um homem da mesma raça que pretenda demonstrar, por sua vez, a falta de fundamento, a irracionalidade de semelhante intuito. Se ele atingiu, ou não, o alvo que visara é ponto que entrego inteiro ao juízo do leitor autorizado, sem contudo abdicar a minha opinião de espectador atento e consciencioso sobre o alcance da controvérsia e os modos de resolvê-la. Diz Jellinek:

“A essência feminina em sua generalidade, como um fenômeno particular da vida natural e humana, tem sido sempre apreciada, nas diversas fases do desenvolvimento do espírito e da história dos povos; a mulher, porém, como personalidade, com todos os atributos que se ligam a este conceito, foi só nos tempos modernos que se tornou objeto de sérias indagações e fortes debates”.

Depois disto, e para comprová-lo, o autor faz uma espécie de resenha das opiniões que dominaram entre vários povos da Antiguidade, a respeito da mulher. A poesia mitológica dos gregos, a filosofia alegórica dos alexandrinos, a mística de muitas confissões religiosas, até os gnósticos cristãos e cabalistas judeus, trovadores, minnesänger e cavalheiros da Idade Média, tudo lhe dá testemunho de não ter sido olvidada a excelência feminina. Como era natural e adequado às proporções estreitas do seu trabalho, o sábio israelita passou rapidamente por esses dados da História e não se quis demorar em extrair, quanto pudera, a substância deles. Há uma coisa, porém, que não merece desculpa: é a maneira, meio atropelada, por que o autor nos apresenta, em épocas diferentes, o conceito psicológico de Eva. Não seria mais conforme ao espírito científico, ou para melhor dizer ao espírito alemão, mostrar, ainda que em ligeiros traços, o desenvolvimento dessa grande ideia, as viagens que tem feito através dos séculos até chegar ao ponto de hoje? Uma vez que se propôs, segundo as próprias expressões, fundar a dignidade da mulher por meio de uma análise filosófica, o método a seguir, e imagino, podia ter sido outro.

I
Janeiro de 1881

O pensamento que presidiu à confecção das linhas iniciais do presente escrito, é o mesmo que me leva atualmente a continuá-lo e concluí-lo [3]. Se alguma diferença se faz porventura notar entre as ideias de outrora e as ideias de hoje, é tão-somente a que pode consistir entre um estado de florescência e um estado de frutificação. Verdade é que seis janeiros dificilmente passam por um espírito, sem deixar abatidos muitos anelos, muitas esperanças, e não poucas vezes também até muitas convicções. Mas no que toca ao assunto, que nos ocupa, eu pude resistir; depois de tanto tempo de abandono, encontrei o velho alaúde perfeitamente afinado, quero dizer, o coração, como dantes, expansivo e predisposto para a questão da mulher, tanto mais quanto neste ínterim ela tomou uma feição mais correta e enriqueceu-se de novas adesões.

O ilustre rabino, a quem aprouve reforçar também com a sua quota o capital, já tão crescido, de prejuízos obscurantes sobre a natureza, o destino, a vocação feminina, se a esta hora ainda existe, não deve olhar com muito orgulho para o seu trabalho de 1872, que bem pudera denominar-se um ensaio de ginecologia bíblica; deve antes sentir-se tristemente impressionado de ver que as suas ideias, ainda que elevadas pouco acima do nível do senso comum, que é a chamada filosofia do povo, não conseguiram ganhar terreno. A parte louca da humanidade, aquela que gira em elipse alongadíssima em torno da velha prática da vida, e que é dotada de maior grau de adaptabilidade, insiste no seu propósito de outorgar à mulher, na esfera da prosa, uma fração ao menos do que se lhe confere na esfera da poesia.

E a questão já chegou a tal ponto, que os doidos entusiastas da emancipação de Eva começam a ser os mais arrazoados no debate. Já vai soando como um ruído de matraca a pretensão fradesca de não abrir-se no gineceu, nem sequer uma janela, que dê para o grande mundo, para a vida em pleno ar, e de permitir-se apenas uma fresta, por onde a mulher veja somente o céu. O nosso autor não leva tão longe, é verdade, as suas exigências de oposicionista convicto; mas não é por isso menos errôneo e inaceitável o seu ponto de vista. O seu ponto de vista, disse eu; porém não é de todo exato. O sábio israelita não pisa em terreno próprio. A sua intuição sobre a mulher, a despeito das graças e encantos do seu bom dizer, é a mesma velha intuição judeu-cristã: a perpétua dependência e inferioridade feminina, ou antes a mulher rainha e súdita, senhora e escrava ao mesmo tempo. É debalde que o autor entoa aqui e ali um salmo à beleza e a uma ou outra excelência psíquica da companheira do homem; o conceito geral não se modifica: é sempre a mulher exclusivamente votada à vida da família, a mulher sem autonomia, sem iniciativa, sem talento, sem originalidade. E tudo isto sob que pretexto? Ainda sob o de um plano divino, ou de uma lei da natureza.

Eu não contesto que nas atuais relações de subordinação e dependência da mulher para com o homem há uma certa regularidade, uma espécie de conformação ao fim, para que ambos existem. Mas justamente no modo de apreciar este fato é que reside o erro da escola, a que se filia Adolf Jellinek. Além de que as coisas regulares ou irregulares são como as boas ou más, das quais diz Shakespeare (Hamlet, Ato II, cena 2) que não o são por si mesmas, que é o pensamento quem as torna tais, acresce que a sociedade, bem como a natureza, sem ser dominada por um princípio de finalidade, pode chegar a resultados de caráter finalístico. E se é possível, por meio da seleção natural ou artística, interromper a série evolutiva de fenômenos que já atingiram esse grau de regularidade, e por um processo de diferenciação dar a uma classe de seres qualidades novas, nenhuma razão milita contra a possibilidade de abrir novos caminhos ao desenvolvimento feminino, de apagar pela instrução, que também é um meio de seleção, a inferioridade atual da mulher e colocá-la dignamente ao lado do homem. É esta a grande questão, de que aliás Jellinek parece ter tido apenas um vago pressentimento. Assim encarado, o problema tem outra face; e para a sua solução, ou antes para tentar resolvê-lo, pois que todas as soluções de problemas humanos rara vez transpõem os limites da tentativa, já não basta alegar que a mulher é um ente fraco, mais receptivo que produtivo, mais sensível que inteligente, etc. etc.; porquanto tudo isto se concede, mas tudo isto não envolve para ela a impossibilidade de uma adaptação superior à herança e por conseguinte de uma transformação de potências, de um aumento de predicados.

O nosso autor, por um ato de lealdade não comum, declara reconhecer que o assunto em questão oferece logo em princípio uma séria dificuldade; e é que, no presente estado das coisas, é impossível formar um juízo seguro sobre o espírito feminino e aplicar uma justa medida às atitudes intelectuais do belo sexo, atento que, por efeito dos prejuízos sociais, as mulheres não têm podido até hoje desenvolver e pôr em prova as suas capacidades. A objeção é realmente séria; mas o autor não hesita em dá-la por facilmente respondível, alegando, como resposta, que no presente estado social nós temos ocasião bastante de observar a vida espiritual do outro sexo e destarte convencer-nos de que a psique masculina e a psique feminina não são idênticas; modo este de discorrer, que não passa de um crasso paralogismo, e não deixa de provocar um riso de desdém.

Em defesa de sua tese Jellinek ainda invoca a chamada economia da natureza, que nada faz superfluamente, que não se repete em seus tipos... Mas ele não se lembra que a natureza é como Deus, que se presta a ser invocado, com igual direito e chances iguais de triunfo, por qualquer de duas hostes beligerantes; nada resolve, por conseguinte. Diz ele:

“Enquanto a voz masculina de uma mulher for, como é, uma coisa chocante e estranhável, nós teremos também por justificado o falar-se de uma psicologia feminina…"

Sim, senhor; mas o que prova isto? Absolutamente nada em relação ao tema proposto. De bom grado concedo a existência de uma psicologia feminina, mas... Quem a faz? Quem lhe formula as leis? Jellinek tem o defeito comum a todos os comungadores da mesma ideia: só parece que, ao menos uma vez na vida, já fizeram parte do sexo amável, tal é o tom de segurança com que falam, psicologicamente, das fraquezas da mulher.

Eu não duvido em subscrevê-lo: a mulher com qualidades másculas, a mulher ossuda e barbada, é na verdade um fenômeno chocante, e autoriza-nos a pressupor uma grande diferença entre os papéis de cada sexo; mas também é certo, que, enquanto se nos não explicar plausivelmente, por que razão, uma vez admitida a unidade de lei no desenvolvimento das espécies, o pavão, por exemplo, é mais bonito que a pavoa, o galo mais que a galinha, o novilho mais que a novilha, o leão mais que a leoa, só a mulher entretanto é mais bonita que o homem, nós temos o direito de admitir uma superioridade feminina e de reclamar para ela as regalias que entendemos competir-lhe.

II

A chamada questão da mulher, depois de atravessar a fase poética e retórica, na qual se queimou muito incenso em honra da deusa, e também, conforme os gostos, muito grito de execração se fez ouvir contra a diaba, depois de deixar o estado crepuscular do idealismo fantástico, chegou enfim ao pleno dia do realismo científico, onde até a estatística com toda a fria prosa dos seus dados, não se recusa a lhe prestar serviços. Não se trata mais hoje pois de escrever livros à saúde da mulher. Cessou o banquete dos deuses, e com as musas que adormeceram, emudeceu também a lira dos poetas. Bem entendido, não para sempre, por algum tempo somente; pois dá-se no domínio ginecológico alguma coisa de semelhante ao que se dá no domínio astronômico: por mais longe que vá o espírito observador, nunca poderá afirmar ter conhecido tudo que é cognoscível e capaz de entrar no campo objetivo dos seus instrumentos de observação; e é justamente esta esfera de conjeturas e pressentimentos, tangente ao círculo, grande ou pequeno, do nosso saber, quer no distrito das estrelas, quer naquele dos belos olhos femininos, que há de sempre constituir o mundo da poesia.

Com razão diz Elisa Oelsner, relativamente a este ponto:

"Assim como para a consciência religiosa o deus transcendente tem ido pouco a pouco se transformando em deus imanente, assim também o nosso batalhar pelo futuro não se dirige mais a ideais de além, infinitamente longínquos, porém os modelos do nosso produzir saem de nós mesmos, do nosso saber e poder, e este idealismo, que quer o que pode, e por isso pode o que quer, parece-nos o único autorizado; os esforços que vão além dele são pura fantasmagoria” [4].

Todo e qualquer escrito, por conseguinte, que se propõe na época hodierna adicionar uma página ao grande livro do chamado sexo fraco, é anacrônico e atrasado, desde que não encara a questão pelo seu lado prático, mas se limita a repetir, com bem poucas variações, o tema popular, que se assobia nas ruas, quero dizer a velha cantiga da beleza feminina, unida à incompetência para outros misteres, que não sejam os do conchego familiar, e da sua despoetização pelo contato com a vida política e social.

Não sei mesmo como um espírito, qual Adolf Jellinek, julgou poder, na terra de Betty Paoli, opor um dique à corrente em que se imergem Marianne Hainisch, Auguste Wilhelmine von Littrow, Johanna Leitenberger, Josefina Wertheimstein e outras muitas naturezas demoníacas, com frases de passageiro efeito e cediços conselhos de prudência.[5]

Os escritores que ainda se dão ao trabalho de bradar contra as justas pretensões da mulher, têm o ar de quem se julga único iniciado nos grandes mistérios de um olhar amoroso, ou de um arfar de seio feminino. Dir-se-ia que só eles conhecem, que só eles experimentaram a magia de um abraço, ou a inebriante doçura de um beijo, e que por isso tratam de mostrar a nós outros, pobres profanos, a quem são desconhecidas estas divinas coisas, que a mulher não é isso que nós pensamos, mas um ente à parte, o qual ao muito pode entrar conosco na luta pela vida em sua forma rudimentar, que é a conquista do pão quotidiano, porém nunca entrar conosco na luta pelo direito, pela luz, pela verdade!... São muito ingênuos estes senhores! Também nós sabemos que gosto tem o néctar, e de que carne é feito o manjar dos numes; mas não é este o ponto em discussão. O desenvolvimento da essência feminina, no sentido de concentrá-la e reduzi-la ao círculo único da família, tem sido natural e regular? Além do teatrinho do lar doméstico, em que ela realmente representa o primeiro papel, não há um teatro mais vasto, onde ela possa expandir talentos e forças ainda não aproveitados? Em uma palavra, a mulher é instrutível pelo mesmo modo e nas mesmas proporções que o homem? Eis a questão, que aliás não é mais uma tal, visto como já bem pouco falta para dar-se, pelo menos no campo da teoria, a vitória completa da emancipação feminina.

O começo de toda cultura, diz Julius Fröbel, é uma oposição à natureza, oposição que não se envergonha de dar até preferência ao que é antinatural, só para documentar o direito do capricho [6]. Esta asserção envolve uma verdade profunda, que bem explica, por que razão a mulher, desde os primeiros tempos, foi tolhida em seu desenvolvimento natural e mandada seguir um caminho, que nunca poderá levá-la ao cimo do outeiro, onde há séculos a esperam seus títulos e seus direitos. Releva porém saber, se este falseamento da evolução histórico-humana, no que pertence ao belo sexo, é ou não suscetível de correção [7]. Eu creio que sim; e o meio de corrigir uma tal cenogênese, individual e social, é sobretudo a instrução, profunda e seriamente ministrada, de modo a despertar e acender no espírito feminino em geral uma centelha, que rara vez tem brilhado, isto é, o sentimento da personalidade, a consciência do próprio valor. O cérebro da mulher ainda não está atrofiado e, à falta de exercício, reduzido à inércia funcional dos olhos da coruja, ou das asas da ema. Ainda é possível uma reação salvadora, que aliás só pode vir pelo meio indicado. Desta espécie de renascimento do sexo feminino depende, em alta escala, o futuro da humanidade. Quem espera frutos do futuro, diz Heinrich von Sybel, deve bem cuidar das flores da atualidade, e a melhor florescência de um povo são justamente as suas mulheres.

Minha ideia, pondere-se bem, a ideia que eu esposo, não é a da rápida transição de um extremo a outro. Nada haveria de mais perigoso do que essa passagem, por exemplo, da Silencieuse à Philosophie des Unbewussten... A natureza não dá saltos; mas seria um salto mortale a troca imediata da familiaridade com Isaac Singer ou Elias Howe pela familiaridade com Hartmann ou Schopenhauer. Não sigo por esse caminho. Os pósteros poderão um dia compreender e admitir, verbi gratia, uma schopenhaueriana costureira; porém hoje é incompreensível e detestável uma costureira schopenhaueriana, uma costureira filósofa, epíteto este, que, entretanto, caberia de direito a toda e qualquer mulher do nosso tempo e da nossa terra, a quem aprouvesse subitamente emancipar-se da almofada por amor do livro, pois que todas, em última análise, qualquer que seja a sua condição econômica e posição social, não saíram ainda do terreno em que floresce a ciência da agulha e do dedal. Festina lente — também é neste, como noutros pontos, a minha norma de conduta.

Mas não se julgue que, assim opinando, eu queira fazer coro com uma certa classe de netunistas políticos, que não admitem catástrofes, que explicam tudo pelo tempo, que exigem para a extinção de um erro ou o reconhecimento de uma verdade a mesma soma de séculos, que se requer para a formação de um arrecife ou a de um banco de coral [8]. Est modus in rebus, sunt certi denique fines. Da árvore que plantarmos hoje, os nossos netos poderão apenas colher as primeiras flores, mas ao certo já os seus filhos estarão no caso de recolher os frutos.

III

No modo de expor os termos do problema, cuja resolução tomou a seu cargo, Jellinek é mais poeta do que filósofo, um poeta porém de antigo estilo, que se delicia na pintura dos mil encantos, mas também na descoberta de cem mil defeitos na face diurna da natureza humana. O seu pretendido estudo psicológico não deixa de apresentar, aqui e ali, observações razoáveis; mas mesmo assim, encarado de alto abaixo, considerado em seu todo, é simplesmente um trabalho de fantasia; mimoso na verdade, mas sempre exagerado. Sobre que classe de seres não se pode idear uma psicologia? As próprias flores têm a sua, a crer-se nos poetas, que lhes conferem este ou aquele sentimento. A psicologia da mulher, por Jellinek, é vazada em molde igual.

Mas o que causa maior estranheza é que o autor, como já fiz sentir, não tomou uma posição definida no campo do combate. Embalde buscar-se-ia saber, como ele se mantém em relação ao grau de cultura, a que deve chegar o sexo feminino; nem uma palavra a tal respeito; antes porém, se é possível algum sinal do seu pensamento neste sentido, encontra-se a velha ideia da vocação exclusiva da mulher para:

“dar à vida humana o seu verdadeiro valor, para lidar ao lado do homem, aconselhá-lo, animá-lo, entusiasmá-lo, discipliná-lo, moderá-lo, enternecê-lo, nobilitá-lo, aperfeiçoá-lo”.

O que tudo quer dizer: para ser esposa e mãe; missão esta que ninguém ainda negou à mulher, e que não é o que se trata de esclarecer.

Não é sem muita razão que F. P. von Holtzendorff, um dos grandes defensores da causa feminina, assim se exprime:

"Entre as frases ocas e retumbantes dos modernos tempos, não se acha uma só, que tenha produzido mais confusão ou prejuízo, do que a de vocação natural. A verdade, que nela se desfigura, significa somente que a esposa, mãe e dona-de-casa, tem o seu mais alto e último mister a cumprir no seio da família, não fora dela. Falar de vocação natural, é coisa que teve um sentido, só enquanto foi preciso opor barreira à desnaturalidade da compressão das virgens na vida claustral. Hoje é diferente. A frase de vocação natural, até das que ficam solteiras, é a mais característica fraqueza de cabeça e falta de pensamento, que se retrai diante da atualidade”.[9]

Nada mais claro e decisivo. Se a mulher existe unicamente, como sói dizer-se, para a vida da família, para as funções supremas de mãe e de esposa, a conclusão é que, uma vez não atingido este alvo, pois que a todas não é dado enfiar no dedo o anel esponsalício, nem o cingir-se da charpa da maternidade é ato que só dependa do desejo de cada uma, a vida da mulher que lá não chega, é uma vida falhada, uma existência espectral, uma peregrinação lastimável. Mas esta conclusão é absurda em si mesma, e ainda mais, porque ela importaria justificar o prostíbulo, quase como uma bela instituição social, estabelecida para corrigir os erros do destino. Assim aqueles que não cansam de repetir o estribilho da chamada vocação natural, deviam lembrar-se, antes de tudo, que no grande baile da vida muita senhora fica sem cavalheiro, que a sociedade não tem à sua disposição o número de noivos, de que carecem as noivas, e que, portanto, é uma extravagância, na educação da mulher, só ter em vista o futuro estado de mãe de família. Pondo de parte o que de mau tem causado esta maneira de ver, atento que mais de um casamento infeliz só deve a sua infelicidade ao velho preconceito, pelo qual a mulher que não casa, é um ente inútil, como o segundo tomo de uma obra de dois, dos quais perdeu-se o primeiro, eu me limito à seguinte observação: dado mesmo de barato que a única missão feminina fosse a de ter filhos e de viver ao lado do homem, há porventura alguma incompatibilidade entre esta nobre missão e um grau superior de cultura? Tão simples é o papel de esposa e mãe, que dispensa a luz intelectual, ou até repele-a como perturbadora do sossego doméstico? Será também uma lei providencial que o homem culto, quando casado, não tenha uma mulher, com quem converse, nem seja por ela entendido?

Estas perguntas trazem em si mesmas as suas respostas, isto é, o espanto, se não antes o riso, que provocam; e todavia elas são naturalmente suscitadas pela opinião comum a respeito da educação do outro sexo, opinião burlesca e anacrônica, que eu sempre estarei disposto a combater.

Como se vê, a questão central no presente assunto já não é a de saber, de quantas asas se compõe a psique de Eva, ou se ela é realmente apta para os grandes voos, mas somente a de fazê-la entrar com o homem na partilha dos mais altos gozos da vida, que são os gozos da inteligência. E aqui seja-me permitido lembrar ideias, já uma vez por mim enunciadas na defensão deste mesmo tema, quando tive a honra, como deputado provincial, de apresentar um projeto de lei sobre a instrução superior feminina nesta província [disponível em: https://archive.org/stream/TobiasBarretoObrasCompletas06EstudosDeDireitoVol.1/Tobias%20Barreto%20-%20Obras%20Completas%2004%20-%20Discursos#page/n45/mode/2up, Parte VII, p. 91-95; ver abaixo as notas 10, 11, 12 e 13].

Estas ideias, com que preambulei a defesa do projeto por mim apresentado, conservam ainda hoje aos olhos de muita gente, não quero dissimulá-lo, a novidade, o despropósito, a extravagância de então. Mas eu insisto em crer que a verdade está do nosso lado, do lado em que nos achamos todos os propugnadores de um melhor cultivo da inteligência feminina. Em assunto de instrução, sobretudo, é soberanamente injusto que a mulher continue a fazer, em relação ao homem, o papel de Ruth – colligere spicas post terga metentium –, e isto mesmo nos casos excepcionais, pois que de ordinário o seu labor mental não se estenda nem sequer a entrar na seara científica, para apanhar as espigas que caem das mãos dos segadores. Diz Clemens Nohl:

“Até hoje, em todas as questões da vida pública só se tem imiscuído uma parte da humanidade; à outra tem-se imposto silêncio, conservando-a bem longe das soluções reclamadas, como incapaz de julgar a tal respeito. Chamou-se metade do gênero humano para um trabalho, que só por todo ele pode ser executado. Isto foi uma loucura, que a humanidade mesma tem pago bem caro”. [14]

Meu ponto de vista é idêntico; e não canso de confessá-lo alto e bom som.

Limitada como tem sido em geral, e como ainda hoje há quem pense que deve ser, não passando além da elementariedade, a instrução feminina é totalmente inútil, e quase podia dizer, perniciosa e fatal. Se já houve quem opinasse que a arte de ler e escrever, sem cultura espiritual propriamente dita, é mais um mal do que um bem, pois importa para os agitadores um meio seguro de propaganda, tendo eles por esse modo um rebanho de leitores dóceis, que não refletem, que não reagem criticamente, parece que isto é aplicável com igual, se não maior propriedade, à instrução elementar feminina. No velho prejuízo, ainda mal extinto atualmente, pelo qual não se admite que a mulher saiba ler e escrever, a fim de não abusar desta ciência com epístolas amorosas, há um fundo de verdade. O abc, reduzido à sua própria eficácia, é uma força perturbadora do equilíbrio moral. Antes a casa de todo não varrida, do que somente começada a varrer e deixada em meio caminho, para acudir-se de pronto a outros misteres: a impressão da imundície fica mais pronunciada. Da poesia do billet-doux à baixa prosa do rol de roupa suja vai apenas a distância de um salto de gato; e todavia são estes os dois polos da esfera literária da mulher, como ela deve ser, segundo o conceito que na prática infelizmente ainda predomina.

Não falta mesmo quem julgue que a honestidade é uma flor selvática, que só viceja em terreno virgem, não revolvido por mãos humanas; que a honradez da mulher é um produto da natureza, e como tal somente medra e floresce na razão inversa do cultivo mental. Singularíssima ideia. É uma triste honestidade aquela que só pode existir por favor da ignorância, ao lado da estupidez. Será de minha parte uma esquisitice, mas eu não compreendo a atitude de certos homens, que calculam o grau da própria ventura pela bruta honradez da cara-metade, sentindo-se elevados e orgulhosos de terem o seu relógio de ouro de lei. Que novidade! Comprar o anel de brilhante como tal, e depois mostrar-se desvanecido e aditado com a legitimidade da pedra!... A honradez na mulher não é um ato, mas um estado; e nesta pressuposição é tão conciliável com a estolidez da mulher de um Haydn, que rasgava-lhe as partituras para fazer embrulhos, como com o talento e ilustração de uma qualquer, que esteja no caso de secundar seu marido no mais difícil dos trabalhos — o trabalho de pensar —, que não viva dele eternamente separada quoad thorum et mensam do espírito. A honestidade feminina, quanto a mim, é uma coisa muito comum e faz parte da bagagem ordinária da vida; é um predicado tão pouco característico desta ou daquela individualidade, como o langor dos cabelos, ou a pequenez dos pés. Não é fenômeno tão singular, nem que custe tanto esforço, para formar-se dele uma virtude, exceto uma virtude que só pode ser garantida pelas quatro grossas paredes da parvoíce. Alguma coisa de análogo, talvez, ao que se dá com a liberdade: deve ser muito poética para quem está na cadeia; porém eu, graças a Deus, acho-a prosaica e trivial, como a água que bebo e o ar que respiro.

Demais, a moralidade que se pretende salvaguardar com a pressão cerebral feminina, está bem longe de ser, como se crê, um rebento da natureza: é um fato de convenção. A moral convencional chega até lá. E para bem explicá-la, seja-me permitido repetir a seguinte narrativa — Um viajante do Oriente achando-se em Constantinopla, saiu uma tarde a passear e contemplar em suas particularidades a cidade dos sultões. Aproximando-se de um parque, onde havia um bosquezinho, cuja sombra era atraente, ele sentiu um murmúrio de vozes humanas; tornou-se curioso, espreitou e viu: odaliscas que se banhavam!... E algumas delas iam então saindo das águas. Que espetáculo! Mas... oh! terror! As belas pressentiram que alguém as lobrigava, e a um grito uníssono, fugiram todas... todas nuas, cada qual mais linda, mais provocadora com a pele de seda umedecida e ondulante,
Comme si, gouttes à gouttes,
Tombaient toutes
Les perles de son collier,
em procura dos véus que pendem da folhagem, e com que logo cobrem os rostos, abandonando tudo mais à extática contemplação do feliz observador; pois esta uma lei do Alcorão: a mulher não deixar que o homem lhe veja a cara; o resto é indiferente. Não se parece um tal preceito com o do evangelho sagrado e profano da nossa moralidade, pelo qual está assentado que a mulher saber escrever um livro é coisa que gera suspeitas contra o seu caráter; não assim porém saber escrever uma carta de namoro? Fazer literatura no salão, conversando e discutindo com qualquer homem culto, está fora dos limites da regular instrução feminina, e compromete a sua reputação; mas é justo e regularíssimo fazer teologia com o padre no confessionário... Isto é digno de riso; mas tem também o seu lado sério, o lado triste e lastimável.

O alteamento da instrução da mulher é um fato já incorporado ao movimento evolucional do processo histórico. É inútil levantar lamentos e objeções a respeito. A faísca do fogo celeste, que alguém já disse continha o coração da mulher fiel, pode carecer, para bem brilhar, da noite da desgraça, mas não carece das trevas da ignorância. Em torno de uma cabeça opaca dificilmente se move um coração luminoso. A ciência não seria digna dos nossos preitos, nem dos nossos sacrifícios, se nas mãos da mulher ela sempre se transformasse em instrumento de perdição. Nem o que se quer em geral, é colocar a mulher na torre solitária da especulação científica. Entre a mulher sábia e a mulher instruída, diz com acerto o holandês van der Wyk, há uma grande diferença, e no que toca à prática da vida, aquela não é mais imprópria e desajeitada do que o homem sábio, a quem não poucas vezes o hábito de pensar confere uma certa aspereza de trato, que não se dá bem com as luvas de pelica. Mas que importa, porque é também o que basta, é ter mulheres instruídas; altura esta que pode ser vingada pelo espírito do sexo, que é um digno irmão do nosso espírito [15]. A chamada questão da mulher não tem outro sentido.

Assim estudado, o problema a resolver é muito mais complexo e exigente do que o supôs Jellinek, cumprindo assegurar que para a sua solução, a despeito das forças de que dispõe, o ilustre rabino contribuiu bem pouco.

Notas
[1] Título de Tobias Barreto referente ao original alemão - Die Psyche des Weibes, von A. Jellinek, 1873.

[2] Ensaio escrito em épocas diferentes. Em julho de 1874, a Introdução, e em julho de 1881, o restante, publicado em Estudos alemães, livro de 1883. Nele, Tobias Barreto repete parte do discurso em defesa do Partenogógio do Recife, escola superior, profissionalizante, que pretendeu criar, quando deputado provincial (1878-1879) depois da célebre discussão com seu colega deputado, o médico Malaquias Gonçalves, sobre a educação da mulher, que está entre os textos do volume de Crítica política e social.

[3] O artigo traz na frente da sua primeira parte a data de 1874; data cuja identidade o leitor terá de notar em mais de um trabalho contido neste volume. Não lhe faço reparo. Todos esses artigos foram começados e publicados naquele ano em um jornal, que dirigi, intitulado Um Signal dos Tempos. À primeira vista nada importava que eu, continuando-os hoje, lhes desse a data hodierna; mas há uma razão em contrário, que não deixa de ter seu peso: sem a indicação do tempo em que foram publicados, eu correria atualmente, em muitos pontos, o risco de passar por um epígono, se não por um plagiário. Não se levará pois a mal que queira livrar-me de tal pecha; é isto ainda uma das formas da probidade literária.
[4] Frauen-Anwalt, I Jahrgang, p. 99.

[5] A expressão “naturezas demoníacas”, que não duvido pareça estranha, eu a emprego com o propósito de firmar a antítese que existe entre mulheres inteligentes e cônscias do seu destino, de um lado, e de outro lado o grande número de simplórias, frias, indiferentes, mal sabendo externar uma ideia, que se eleve alguns pontos acima do mezzo soprano da moda, do tricô e do crochê, mulheres bonecas, em que se pode, é verdade, adivinhar umas lindas e polpudas pernas, um umbigo ideal, delícia dos olhos ou de qualquer outro sentido ainda mais exigente, e que faria lembrar o próprio alabastrum unguenti pretiosi, derramado sobre a cabeça do Cristo, mas também se reconhece um espírito paupérrimo, e às quais aliás se dá o título de naturezas angélicas, sem dúvida por já mostrarem na terra o idiotismo transcendental que as espera no céu.

[6] Die Gesichtspunkte und Aufgaben der Politik, p. 243.

[7] A velha frase belo sexo já me vai causando suspeitas; quer parecer-me que ela, por si só, exprime tudo que há de frívolo e leviano no modo comum de apreciar a natureza feminina. Dá-se com o belo sexo o que se dá com as belas letras: assim como, a respeito destas, bem poucos são os que consideram-nas mais que um assunto de puro entretenimento, assim também, a respeito daquele, são raríssimos os que se elevam acima do ponto de vista, não direi estético, mas puramente plástico; e este é o mal, que deve ser combatido.

[8] O destino tem ironias!... A minha querida Alemanha é a criadora ou pelo menos a formuladora da teoria da evolução, que em muitos casos não passa de uma teoria da paciência, por força da qual o plutonismo político e social é um ataque à história, um absurdo científico. Entretanto, dificilmente encontrar-se-á, nesta esfera, um fenômeno plutônico mais caracterizado do que a súbita elevação da pátria de Kant ao grau de primeira potência política do mundo atual; elevação merecida, sem dúvida, mas nem por isso menos inesperada e fora dos cálculos comuns, tanto quanto podia sê-lo o aparecimento de uma ilha por efeito de uma erupção vulcânica. Já se vê que nem sempre a evolução é suficiente para solver certos embaraços. Da combinação do netunismo com o plutonismo é que pode resultar a verdadeira doutrina, dando-se a cada um o seu papel: ao inconsciente da história, a lentidão das águas no seu labor de acumulação e putrefação; à consciência humana, o rápido processo ígneo dos abalos e agitações necessárias.

[9] Frauen, Anwalt, I, p. 53.

[10] Este projeto, que teve apenas o succés d'estime de passar em primeira discussão, continha a ideia da criação de um estabelecimento público de cultura literária e profissional para as moças, sob a denominação de Partenogógio do Recife, e dividido em duas escolas: escola média (Mittelschule) e escola superior (Höhere Schule). Não preciso dizer que a minha ideia pareceu então um sonho de poeta. E possível que hoje, depois que a mãe França entendeu dever, como obrigação do Estado, elevar o nível da instrução do outro sexo, estragada e abatida pelas doutoras do sacré coeur & cia., já se compreenda o alcance do meu projeto, mas é certo que naquela época (maio de 1879) julgaram-no objeto de deliberação por mera condescendência; e tanto assim foi, que um ano depois, quando eu não era mais deputado, fizeram-no cair em segunda discussão, por ser um projeto “desponderado” e até “imoral” !...

[11] Este assunto já tinha sido debatido na mesma assembleia provincial de Pernambuco, na qual anteriormente ao decreto de 19 de abril de 1879 discutira-se a questão da atitude da mulher para os estudos universitários, a propósito de um pedido de auxílio que fizeram duas distintas moças, a fim de estudarem medicina no estrangeiro; e nessa discussão eu tive alguma parte.

[12] Mais de uma discípula que aproveita de tais colégios não sabe nem sequer conjugar o verbo saber. "V. Excia. far-me-á o obséquio de tocar ao piano um noturno de Chopin?” — “Não sei-o”, é a resposta comum. Bem poucos seriam, na verdade, os que não quisessem fazer dos próprios lábios catechu, para apagar na boca da bela aquela letrinha de mais... Porém o sei-o em vez de sei  faz mal aos nervos.

[13] Ao menos enquanto não chegar à época prefixa pelo profeta V. Hugo, o nosso atraso há de ser sempre superlativo em relação a outros países: temos para isso muito boas razões. Mas é consoladora, se não para mim, todavia para outros, a esperança gerada pelo verbo do vidente. Isto é, que no século XX, de 1900 em diante, o Brasil há de ser alguma coisa de grande e extraordinário. Só há a ponderar o seguinte: é que, no mesmo século vindouro, segundo próprio alcance de V. Hugo, a França tem de ser deusa (Paris guide); e como este, muitos outros fatos dar-se-ão, a crer-se no vaticínio do mestre, que aliás são inconciliáveis com a prometida grandeza do Brasil. Oh!... mísera fraqueza humana! O republicano V. Hugo, não achando palavras bastantes para agradecer a honra que lhe adveio da visita de um rei, como Pedro II, deita-se a dormir e sonha maravilhas para esta terra, que esse rei aliás tão desastradamente governa!!...

[14] Eim neuer Schulorganismus, p. 151.

[15] Irmão mais moço e mais sadio, e pelo que nos diz respeito visivelmente superior em talento. Não é um galanteio de escritor; é uma convicção, a mulher brasileira é, em geral, guardadas as proporções, mais inteligente que o homem. Nota-se-lhe um certo desembaraço, uma certa viveza de intuição que não é comum no sexo masculino, em sua grande maioria assinalado por uma tal inércia devida talvez ao excesso de calor, a cuja maléfica influência o homem está mais exposto. E este fenômeno da superioridade intelectual feminina, salvo uma ou outra incorreção da língua, por falta de instrução, manifesta-se até nos círculos polares de nossa fútil aristocracia, onde as mulheres são quase todas ágeis, vivaces, conversáveis, ao passo que os homens são ordinariamente de uma lastimável curteza de vistas, revelando a cada passo a preponderância do elemento animal.


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Recordação de Kant

Tobias Barreto

Was man treffend von Lessing gesagt hat, das gilt ebensosehr von Kant: auf Kant Zurueckgehen heisst Fortschreiten.” (Herman Hettner)
[O que se diz apropriadamente de Lessing também vale para Kant: retornar a Kant é progredir.]

La negatività l’alfa e l’omega dell’alfabeto razionale: che, a simiglianza di quello degli Etruschi, è il noto segno d’un idioma ignoto.” (Antonio Tari)
[A negatividade é o alfa e o ômega do alfabeto racional: que, à semelhança daquele dos etruscos, é o sinal conhecido de um idioma desconhecido.]

  •  ➤ Há 130 anos (texto de 1887), ressaltando a necessidade de se harmonizar a investigação filosófica com os resultados estabelecidos pelo método matemático-experimental da moderna ciência, Tobias Barreto defendeu a ideia de que o estudo da doutrina kantiana era a orientação filosófica mais adequada à modernização da cultura brasileira pós-colonial, e neste sentido deve-se compreender a tese, defendida posteriormente por Farias Brito, segundo a qual a moderna ciência, que historicamente é um produto da filosofia, por sua vez se faz condição da filosofia, e deste modo se torna fator essencial na obra do pensamento.
  • ➤ Versão atual do texto Recordação de Kant baseada na edição de Paulo Mercante e Antônio Paim (BARRETO, Tobias. Estudos de filosofia. In: Obras completas. Rio de Janeiro; Record; Brasília; INL, 1990, p. 333-351).


I

Não há domínio algum da atividade intelectual em que o espírito brasileiro se mostre tão acanhado, tão frívolo e infecundo, como no domínio filosófico.

É certo que todas as outras manifestações da nossa vida cultural dão também testemunho de uma singular e incomparável fraqueza. Mas é sempre dar testemunho de alguma coisa. Um certificado de doença é em todo caso menos triste que um certificado de morte.

Assim, não temos poetas e nem artistas de merecimento; mas a poesia e as artes se cultivam entre nós. Não podemos lisonjear-nos de possuir um só jurista de estatura europeia, como o Chile possui o seu Calvo, e os Estados Unidos o seu Dudley-Field; porém, ao menos, é certo que o direito constitui uma das nossas mais constantes ocupações intelectuais.

Ciência, história, literatura — tudo isto é fútil; mas seria uma injustiça querer exprimir tudo isto por meio de uma fórmula absolutamente negativa. No fundo da crítica fica sempre algum resíduo, que ainda pode servir de fermento a mais sérias e mais dignas produções futuras.

Com a filosofia o caso é bem diverso. Se nas outras esferas do pensamento, somos uma espécie de antropoides literários, meio homens e meio macacos, sem caráter próprio, sem expressão, sem originalidade, no distrito filosófico é ainda pior o nosso papel: não ocupamos lugar algum; não temos direito a uma classificação.

Este meu modo de ver não é novo. Há treze anos (1874), escrevendo um ligeiro artigo sobre Eduard Von Hartmann, e depois de bem acentuar a nossa absoluta ignorância em assuntos de filosofia, já ousava dizer o seguinte: 

“Posto que pareça, não exagero; não altero, nem numa vírgula, a objetividade dos fatos. Na verdade, o que é filosofia entre nós? Simplesmente o nome de um preparatório, que a lei diz ser preciso para fazer-se o curso de certos estudos superiores. Fora disto, ninguém há que se interesse, que tome ao sério qualquer estudo de aplicação e cultura filosófica. O ensino desta disciplina — público ou particular — é uma coisa mísera, e frívola em sua miséria. Um exemplo basta para confirmá-lo; mas esse é decisivo: por que título se distingue o lente da disciplina Filosofia no Colégio Pedro II? Sob que forma já se manifestou a sua ciência? Quem sabe como ele pensa? Indubitavelmente estas perguntas e suas respostas põem a descoberto, de modo irremediável, uma das faces negras do nosso estado de mendicidade espiritual.” [1]

Não ficou aí. Um ano depois, na redação do curioso jornalzinho intitulado Deutscher Kämpfer, que tanto deu que fazer à confraria dos parvos, ainda escrevi estas palavras:

O que de melhor se pode dizer a tal respeito é afirmar que ponto de vista filosófico do nosso pretendido mundo sábio é caduco e imprestável. Nem há dúvida de que até as estrelas de primeira grandeza, os célebres pensadores e escritores, só se assinalam pela sua fé implícita no velho Deus da teologia e da igreja. Nada sabem, nada compreendem do desenvolvimento da vida espiritual da atualidade… Uma coisa resta a observar: é que com essa enorme ignorância caminham emparelhados o orgulho e o desprezo dos grandes feitos científicos estrangeiros, principalmente alemães..."

O fim do meu escrito fora contribuir para elucidar a questão de saber, se já tínhamos chegado ao ponto de considerar a metafísica inteiramente morta, como então pretendiam e ainda hoje pretendem os positivistas de todos os feitios. Neste sentido continuei:

“Se atualmente nenhum homem culto pode desconhecer que o dogmatismo da filosofia moderna, ou a metafísica, foi espedaçado por Hume, cuja crítica inexorável coube a Kant concluir em mais larga extensão e com maior profundeza, não deixa de causar admiração o grande espanto que estas verdades triviais ainda estão no caso de despertar entre nós. Com efeito, bem antes que Augusto Comte, o fundador do positivismo em França, enxotasse o absoluto para o país das quimeras, já Hume tinha derrubado todo edifício metafísico:


Turrim in praecipiti stantem summisque sub astra
Eductam tectis...

[VIRGÍLIO, Eneida, II, 460: “Torre em declive pendente, às nuvens sobre o teto alçada…”. Internet: https://archive.org/stream/virgilsaeneidbo01denngoog#page/n74/mode/2up/search/Tela+manu+miseri+jactabant. Consulta: 03/08/2017.]

E desde esse tempo, como diz Hermann Hettner, é geralmente reconhecido que a proeza intelectual de Hume constitui uma das fases mais importantes do pensamento humano. Realmente foi a dúvida do grande filósofo escocês sobre a validade dos juízos sintéticos em geral que tornou-se o móvel e o foco das profundas indagações de Kant. Este filósofo mesmo confessava que a lembrança de Hume fora quem primeiro o despertara do seu sono dogmático” [2].

Eis aí. Há tanto tempo que estas linhas foram traçadas, e contudo, no que diz respeito à nossa ineptidão para o estudo da filosofia, ainda conservam o frescor da atualidade. É um velho diagnóstico, hoje reforçado e confirmado por um novo exame do doente.

Mas é um trabalho supérfluo querer demonstrar que o Sol não é frio, ou que o Brasil não tem cabeça filosófica. Renuncio ao prazer e à glória de uma tal demonstração. [3]

II

Ainda não há muito tempo que a filosofia, nos países mesmos do seu maior cultivo, e onde mais rica se mostra a sua história, se ressentia de um geral descrédito.

Não aparecia uma nova obra filosófica, que a crítica não tratasse logo de confrontar com essa indiferença pública, já tida em conta de uma verdade axiomática, ou para fazer-lhe a censura de vir aumentar o sentimento dominante, ou para tecer-lhe o elogio de que ela seria capaz arredá-lo, capaz de reanimar o interesse pela velha e abandonada filosofia.

Este fato, que é incontestável, prende-se a duas causas principais: por um lado, o fiasco imenso do sistema de Hegel, que em sua pretensão satanicamente orgulhosa de construir e compreender o universo, segundo a dialética do conceito, acabou por destruir a si mesmo, dividindo-se em escolas e direções antagônicas, em que os discípulos, depois de terem rasgado e partilhado entre si a capa do mestre, tornaram ainda mais patente a insustentabilidade da sua doutrina; por outro lado, o surto que tomaram as ciências naturais, filhas da observação e da experiência, e como tais quase sempre avessas a todo e qualquer apriorismo especulativo.

O hegelianismo, sobretudo, que chegara a assumir o caráter de uma filosofia da filosofia, o remate e a coroa de todos os sistemas anteriores, concorreu em grande escala para desviar os espíritos da senda filosófica e infiltrar-lhes um novo gosto e uma nova direção.

Com efeito: a filosofia de Hegel, superficialmente apreciada, se apresentara como um harmonismo universal, que não admitia fora de si antítese alguma, que tinha pelo contrário vencido e conciliado em si mesmo todas as antíteses.

Na realidade, porém, e depois de uma análise mais exata, ela se mostrou um perfeito modelo de contradições, um exemplar de confusão caótica.

A filosofia de Hegel queria ser uma conciliação absoluta do pensamento e da realidade; mas acabou por ser uma volatilização espiritualística do real e uma corrupção metódica do puro pensamento. Ela pretendia ser medianeira entre a liberdade e a necessidade, entre a intuição antiga e a intuição moderna, entre todas as coisas enfim que até haviam passado por absolutamente inconciliáveis; porém, no fundo, nada conciliou. Todos os seus processos de harmonização são outros tantos brinquedos de um espírito que se diverte em excitar a guerra de tudo contra tudo, só para ter o prazer de propor e formular a paz.

Já se vê que, chegando a este ponto, sendo esta a última fase da sua evolução multissecular, a filosofia estava exausta, a sua bancarrota era inevitável. Ela devia dissolver-se, e efetivamente a dissolução deu-se dentro da escola mesma por meio das próprias forças inerentes ao sistema.

Foi assim que, depois da morte de Hegel (1831), a especulação filosófica na Alemanha perdeu quase todo o seu valor de outrora. Os espíritos estavam presos de uma tendência bem diversa. As obras de filosofia que foram publicadas daquela época em diante ou passaram inteiramente despercebidas, ou só mui posteriormente, quando já havia começado o novo período de relações harmônicas entre as ciências naturais e os estudos filosóficos, puderam despertar a atenção geral.

O quarto, quinto e sexto decênios deste século contam ali bem poucos filósofos de velho cunho; e esses poucos mesmos são todos de caráter episódico, sem influência notável sobre os destinos da filosofia.

Predominava então crítica soberana. Não eram Hegel e Schelling, nem Herbart e Krause, mas eram Strauss e Bauer, Feuerbach e Arnold Ruge que estavam na ordem do dia. 

Entretanto por esse tempo o ecletismo na França ainda conservava a cabeça erguida e ao lado dele, posto que principalmente volvida contra ele, a filosofia católica, pelo órgão dos Bautain, Guiraud e consortes, acumulava tolices sobre tolices, que então valiam por verdades preciosas, porém atualmente só podem causar riso a qualquer leitor desprevenido.

Augusto Comte ainda não se tinha feito notar. A revolução que ele produziu ou pretendeu produzir contra as teorias filosóficas vigentes só depois de sua morte principiou a tomar um certo incremento.

De modo que justamente ao tempo em que na França — de 1857 em diante — a filosofia especulativa ou a metafísica entrou a ser posta no número das coisas peremptoriamente acabadas, já a Alemanha havia atravessado o período de desconsideração e menosprezo das indagações filosóficas, e tratava agora de estabelecer uma nova e duradoura aliança entre a mesma filosofia e as ciências naturais.

O que há, porém, de mais notável é que, para entabularem essa aliança, as ciências aceitaram de preferência a filosofia de Kant. Os sistemas, que evolutivamente saíram do kantismo, tornaram impossível qualquer acordo neste sentido. Todas as questões que hoje se suscitam e discutem no terreno das ciências naturais, inclusive a matemática, defrontando com a filosofia, conduzem necessariamente aos fundamentos do sistema kantesco, como um campo de operação comum.

E dos chefes reconhecidos das escolas científicas nenhum empenhou-se mais cedo, nem com mais perseverança, do que Helmholtz, para que se fizesse justiça à memória de Kant, como também nenhum outro mostrou mais interesse pela reanimação dos esforços filosóficos que são dignos deste nome, e não de todo imprestáveis, como os desvarios dos chamados filósofos da natureza, Hegel, Schelling e seus aventurosos caudatários.

Assim, quando ele primeiro deu público testemunho do seu respeito para como o mestre de Koenigsberg — nos anos de 1854 e 55 —, não pertencia ao costume geral fazer reverência à filosofia, em qualquer das suas manifestações; e Helmholtz mesmo tinha bem consciência de ir de encontro ao pensamento da moda, como demostram as palavras introdutórias de sua conferência Ueber das Sehen des Menschen [Sobre a Visão Humana. Internet: https://archive.org/stream/bub_gb_Nlo-AAAAYAAJ#page/n7/mode/2up; ver também: https://archive.org/stream/hermannvonhelmho00koenrich#page/138/mode/2up. Consultas: 30/07/2017.], de 1855.

No seu Handbuch der physiologischen Optik [Manual de óptica fisiológica, 1867], ainda ele fala da “negação da nossa época para as pesquisas filosóficas e psicológicas”. O protesto lavrado naquela conferência de que não eram considerações exteriores ou um oculto antagonismo, mas completo reconhecimento e alto respeito, os móveis que o impeliam a dar expressão à sua veneração para com Kant — esse protesto foi suficientemente confirmado por meio das publicações científicas posteriores. O Manual de óptica fisiológica, por si só, oferece muito mais do que simples testemunhos oratórios em prova de que era com efeito a própria disposição do assunto que ao lado do interesse naturalístico despertava igualmente o interesse filosófico.

O reconhecimento não só da capacidade de Kant, mas também dos resultados a que ele chegou, no tocante à faculdade do conhecer, aparece de novo na Óptica assim como nos outros escritos do grande naturalista, de caráter mais popular, que mais tarde foram publicados. E destarte, quando se trata das relações entre a filosofia e a exata indagação, não há injustiça em considerar Helmholtz como o mais apropriado representante da última, em frente de Kant, que ainda é quem melhor e mais dignamente representa a direção filosófica.

É mister todavia observar que a palavra filosofia deve ser aqui tomada em sentido restrito, significando unicamente aquela parte da ciência que se ocupa da teoria do conhecimento. Não se trata da estética e nem da ética, mas somente da primeira das três questões formuladas por Kant, nas quais se concentra, segundo ele mesmo se exprimiu, todo o interesse da razão, tanto especulativa, como prática; e a questão é a seguinte: o que posso eu saber? [4].

Ora, o problema desta parte da filosofia kantesca, bem como de qualquer verdadeira filosofia, foi excelentemente assinalado por Helmholtz na mencionada conferência com as seguintes palavras:

A filosofia de Kant não teve em mira aumentar o número dos nossos conhecimentos por meio do puro pensamento, porquanto o seu princípio supremo é que toda e qualquer noção de realidade deve ser bebida na experiência; mas o seu único intuito foi o de inquirir as fontes do nosso saber e o grau da sua legitimidade; trabalho este, que há de sempre pertencer à filosofia, e ao qual nenhuma época poderá impunemente subtrair-se.” [Internet: https://archive.org/stream/bub_gb_Nlo-AAAAYAAJ#page/n9/mode/2up. Consulta: 30/07/2017.]

A perfeita conciliabilidade da filosofia com as ciências naturais aí se acha claramente formulada pela limitação dos dois domínios, vis-à-vis um do outro. 

Mas essa conciliabilidade e essa limitação não querem dizer nem que a filosofia deva conforma-se com todas as induções das ciências naturais, ou que estas devam girar somente dentro do plano traçado por aquela, nem também que seja vedado ao naturalista lançar um olhar filosófico sobre o seu campo de observação, ou o filósofo penetrar, como indagador, nos reinos da natureza.

III

Neste pé se achavam na Alemanha as relações entre os dois grandes ramos do saber quando uma das primeiras autoridades nas ciências exatas, o professor de astronomia física Frederico Zöllner, em Leipzig, publicou o seu célebre livro Über die Natur der Cometen: Beiträge zur Geschichte und Theorie der Erkenntniss [Sobre a natureza dos cometas: contribuições à história e à teoria do conhecimento. Internet: https://archive.org/stream/bub_gb_9heRMFQ20SMC#page/n3/mode/2up; ver também: https://scienceandpseudoscience.files.wordpress.com/2013/12/staubermann-2001-article-on-zollner1.pdf. Consultas: 30/07/2017.], de 1872.

Nesta obra o notável professor mostrou ser indeclinável o íntimo acordo, o consórcio da exata investigação com a filosofia, semelhante, como ele mesmo diz, à reconciliação de dois amantes que estavam há tempo arrufados e separados, em consequência de recíproco erro.

Zöllner coloca em eterno laurel a fronte da filosofia, provando que ela, por caminho puramente especulativo, pressentiu e antecipou as mais importantes descobertas, que as ciências naturais só muito mais tarde vieram a fazer indagação experimental. O apriorismo especulativo da lei da causalidade, admitido por Schopenhauer, acha a sua confirmação empírica na Óptica de Helmholtz; o naturalista Wallace reforçou por meio de fatos o que Schopenhauer havia estabelecido pela demonstração metafísica sobre matéria, força e vontade.

Em um capítulo especial, o último de seu livro, Zöllner se ocupa de Immanuel Kant e sua Benemerência para com as Ciências Naturais [onde afirma]:

“Por meio da prova do verdadeiro espírito científico e gênio ‘quase profético do filósofo de Koenigsberg’ (…) deve-se tirar da moderna geração de naturalistas o prejuízo que se lhes inoculou contra tudo que se chama filosofia, e incutir-lhes de novo a fé, que já vai perdida, na fecundidade e necessidade de uma cultura filosófica racional, até em bem do progresso nas ciências naturais”.

Com esta obra de Zöllner, que fez época, não se esgotam entretanto os documentos em favor da atual significação da filosofia, em favor do novo reconhecimento da sua indispensabilidade.

Cientificamente talvez de não maior importância, mas em todo caso de ainda maior influência sobre a cultura geral, poderia considerar-se o resultado surpreendente, a que chegou, antes mesmo de Zöllner, o mais avultado dentre os sábios materialistas dos novos tempos, Ernesto Haeckel, em sua Natürliche Schöpfungsgeschichte [História da criação natural. Internet: https://archive.org/stream/natrlichesch1868haec#page/n7/mode/2up. Consulta: 30/07/2017], de 1868.

Esse resultado culmina-se no arredamento do dualismo, até então mais ou menos dominante, de espírito e matéria; e não decerto pela subordinação de um princípio ao outro; por conseguinte, nem em favor do materialismo, nem em favor do espiritualismo. O corpo mesmo é o espírito desconhecido, o espírito, porém, é o desconhecido no corpo, e a natureza com o espírito que nela impera, uma unidade metafísica. Tornar compreensível esta unidade, construir o seu conceito, é o problema que Haeckel entrega a uma nova filosofia, sob o título de monismo

Mas não devo deixar inobservado que o ilustre professor de Jena não foi sempre coerente consigo mesmo no desenvolvimento da sua doutrina. Antecipando a filosofia no modo de compreender a unidade metafísica da natureza, ele acabou de eliminar o espírito em proveito da matéria, e o seu monismo degenerou em puro mecanismo.

Falando deste sábio e dos seus trabalhos naturalísticos, diz Eduard von Hartmann:

“Haeckel era bastante alemão para reconhecer francamente que a nova teoria da procedência das espécies, uma das outras, e da unidade do tronco genealógico do reino orgânico, não pertence mais às ciências naturais, que ela já é propriamente filosofia da natureza, e só pode sair de uma mistura de base empírico-científica e especulação filosófica. Ele honrou de novo perante as ciências naturais a filosofia há tanto tempo desdenhada, e forneceu mesmo em sua Generelle Morphologie preciosíssimas contribuições, em diversos sentidos, para a filosofia da natureza. Infelizmente, porém, este acolhimento da filosofia não chegou até o ponto de desviá-lo do prejuízo do tempo — a intuição mecânica do mundo —, e este prejuízo domina-o por tal modo que até hoje o tem impedido de se adaptar às restrições e retificações, cuja necessidade o mesmo Darwin tem confessado com uma admirável abnegação em puro amor da verdade.” [Wahrheit und Irrthum im Darwinismus (Verdade e erro no darwinismo), p. 150. Internet: https://archive.org/stream/bub_gb_IvQ_AAAAIAAJ#page/n159/mode/2up. Consulta: 30/07/2017]

São palavras magistrais, a que nada se pode acrescentar, pois encerram a mais perfeita característica do sábio naturalista. Além disto, elas servem ainda de prova da verdade anteriormente enunciada, de que ao filósofo não é vedado medir com olhos de investigador os domínios da natureza. O exemplo de Hartmann é eloquentíssimo.

Entretanto, e por maior que seja a veneração que o tributo ao grande autor da Philosophie des Unbewussten [Filosofia do inconsciente], não posso concordar com Heinrich Landsmann, a quem aliás sou devedor de alguns esclarecimentos sobre o presente assunto, quando diz que o primeiro sistema de filosofia monística, reclamado como uma necessidade para completar o edifício das ciências naturais, de que Haeckel pode ser considerado o genial arquiteto, foi o sistema de Hartmann.

É uma falsa apreciação esta, que se complica de uma grave injustiça. Sem falar de filósofos anteriores, como Schopenhauer, que teve a mais viva intuição da unidade do espírito e da natureza, ou como Lazarus Geiger, que pressentiu mais de uma verdade hoje corrente e assentada entre os naturalistas, importa ainda assim reconhecer que a filosofia do inconsciente não é a mais apta para formar a cúpula do edifício.

É certo que ela se vangloria de proceder segundo o rigoroso método científico; mas acho um pouco infundada semelhante pretensão. Pelo contrário: o hipotético, o inverificável, o fantástico mesmo representam nela um papel assaz considerável e de nenhum modo adequado ao rigor e exatidão da ciência.

O próprio Haeckel, que rendeu preito às excelentes observações e profundas ideias do autor, não duvidou apoiar a crítica que fizeram à filosofia de Hartmann, acusando-a de confundir sob a expressão de inconsciente uma porção de coisas as mais diversas, que necessitam de uma análise discriminadora; e afinal, para ele, essa filosofia, considerada em sua totalidade, não tem força para sustentar-se, ainda que nela existam preciosos germes que podem produzir riquíssimos frutos (HAECKEL, Natürliche Schöpfungsgeschichte, Vierte Auflage, p. XXXIX).

É, pois, evidente que o sistema de Hartmann não resolve o problema que lhe destinou Heinrich Landsmann. Posto que viesse primeiro, e como tal pareça ter com efeito a prioridade no mérito, quando somente lhe cabe a estéril prioridade no tempo, ele desaparece diante de um outro sistema, de vistas mais elevadas e mais sólidos fundamentos. É o monismo filosófico de Noiré. Só este realmente está no caso de completar e corrigir o monismo científico de Haeckel.

Assim me exprimindo a respeito da Philosophie des Unbewussten, é supérfluo advertir que não faço coro com críticos da têmpera de um J. Fischer na Alemanha, ou de um Stiebeling nos Estados Unidos, para ambos os quais o trabalho de Hartmann é a mais alta expressão da insensatez do espírito filosofante.

O ponto de vista destes dois escritores é o do materialismo nu e descarnado; e eu não ando por esse caminho. O que julgo dever contrapor à filosofia de Hartmann não é um programa completo, uma espécie de tábua, que não se pode aumentar, nem diminuir, de verdades feitas e acabadas, como têm-na os materialistas e positivistas; mas é uma outra filosofia, bebida nas mesmas fontes, animada do mesmo espírito, e que apenas me parece mais segura em seus princípios, mais certeira em suas consequências.

E um dos melhores predicados do sistema de Noiré é que ele não se presta, como o de Hartmann, a despeito de todo o seu aparato científico, a uma chamada popularização das doutrinas filosóficas.

Será sempre digna de menção a verdade expressa por Goethe:

“Há um mistério na filosofia. Deve-se dispensar o povo de sondá-lo, e o menos que for possível atraí-lo com força para a indagação de tais matérias. O povo contenta-se com repetir bem alto o que bem alto lhe foi ensinado. Deste modo originam-se os mais estranhos fenômenos, e as fátuas pretensões não têm mais fim.”

Um homem simplesmente esclarecido, mas um tanto rude é grosseiro, muitas vezes embebido em seu falso saber, zomba de objetos, diante dos quais um Jacobi, um Kant inclinar-se-iam com respeito. Os resultados da filosofia devem vir em proveito do povo, não se deve, porém, querer elevar o povo à altura de filósofo.

Mas voltemos ao centro do nosso assunto.

IV

Quando se trata de pôr um termo à inimizade, que até Schiller aconselhara se mantivesse ainda por algum tempo entre a filosofia e as ciências naturais, e apela-se para Kant, como o órgão mais sadio da especulação filosófica, ao passo que foi também o filósofo mais chegado ao naturalismo científico, muita gente toma-se de espanto, não compreendendo como se possa conferir semelhante honra ao maior dos metafísicos, sem dúvida, como o chamou Augusto Comte, mas sempre um metafísico, e como tal um representante de um ponto de vista atrasado, decrépito, inaproveitável.

Felizmente essa muita gente é balda de todo critério, e não tem voto para decidir em coisas sérias. Não obstante, aceito a observação, como se fosse feita por pessoas competentes, para aproveitar o ensejo que melhor se me oferece, de elucidar uma questão interessante, da qual os positivistas fazem grande alarde, e que é para eles a verdadeira linha divisória entre o antigo e o moderno filosofar.

Refiro-me à questão da metafísica em geral. Efetivamente: não há frase mais corriqueira na boca dos discípulos e subdiscípulos de Comte do que o epíteto de metafísico desdenhosamente assacado a quem quer que ousa ter uma ideia não de todo contida no cânon positivista.

Mas entendamo-nos uma vez por todas: o que é um metafísico? O sentido desta expressão se acha determinado na história da filosofia; não era lícito a Comte, nem a Littré, nem a outro qualquer conferir-lhe uma significação que ela nunca teve.

Metafísico de velho estilo se diz aquele que pretende sondar o que está fora de toda experiência, sem ter-se de antemão certificado de que um tal saber seja possível, bem como do valor e aceitação que ele possa ter.

Com uma admirável confiança os metafísicos costumam afirmar e definir o absoluto, o ultra-experimental; mas todas as suas teorias não passam de simples hipóteses e conjeturas; isto se prova até pela diversidade e contradição recíproca dessas mesmas teorias.

Um filósofo alemão contemporâneo, A. Spir, faz a seguinte notável observação:

“Se um astrônomo quisesse levantar hipóteses sobre os habitantes de Marte e Júpiter, seus costumes, seus hábitos de vida, suas instituições políticas e sociais, todo o mundo teria esse procedimento por um gracejo e um ocioso passatempo; entretanto a metafísica ainda é considerada por muitos como uma ciência real e elevada. Mas eu pergunto: quem está em condições mais favoráveis e tem melhores razões em seu favor — o pretensioso astrônomo ou o pretensioso metafísico? Os habitantes de Marte e Júpiter não podem decerto entrar jamais no círculo da nossa experiência, mas ao menos eles repousam, caso existam, no domínio da experiência em geral; e destarte o arrogante astrônomo tem um longínquo vislumbre de autorização e competência, para concluir do que se passa entre nós o que se passa entre eles, e dar assim um livre voo à sua fantasia. Quais são, porém, os pontos de apoio do metafísico, que quer pôr-se acima de toda a experiência, e que deve também, por conseguinte deixar atrás de si toda as analogias do mundo experimental? Entretanto o artifício dos metafísicos consiste exatamente em transportar a experiência comum para as regiões do absoluto. Eu devo confessar que julgo a direção metafísica na filosofia uma espécie de doença, que não se pode arredar por meio de argumentos” [Denken und Wirklichkeit (Pensamento e realidade), 1, p. 5-6. Internet: https://archive.org/stream/DenkenUndWirklichkeitBd.1/Afrikan_spir_denkenUndWirklichkeit01#page/n19/mode/2up. Consulta: 30/07/2017].

Nada mais claro. Aí está perfeitamente delimitada a carta da velha metafísica. Releva agora perguntar afoitamente: o que foi que Kant afirmou sobre o absoluto, sobre aquilo que repousa além da experiência?

Que hipótese construiu, que conjeturas formulou, que possam equiparar-se às gratuitas suposições do astrônomo de que fala Spir? 

Ninguém poderá apontá-las. Pelo contrário: bem longe de ser Kant um arquiteto de castelos aéreos, foi ele quem acabou de arrasar por vez o palácio encantado da velha fada, que seduzira e perdera mais de um espírito superior. E fê-lo ciente e conscientemente. A filosofia crítica, obra exclusiva de Kant, não surgiu senão como antítese da filosofia dogmática, até então dominante; e o dogmatismo filosófico é justamente a metafísica. 

Nos escritos do filósofo encontra-se a cada passo os mais claros certificados da sua intuição inteiramente nova e diametralmente oposta ao modo de ver comum. Assim, por exemplo, ele diz:

“a asserção dos metafísicos deve ser ciência, ou então é nada.” [Prolegomena zur einer jeden künftigen Metaphysik, die als Wissenschaft wird auftreten können (Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência), ed. Rosenkranz, p. 32. Internet: https://archive.org/stream/b21913407_0003#page/n47/mode/2up. Consulta: 31/07/2017.]

Em outro lugar:

“Uma hipótese transcendental, na qual uma simples ideia da razão fosse empregada para explicar a natureza das coisas não seria uma explicação, pois aquilo que não é bastante compreendido em virtude de princípios empíricos conhecidos seria assim explicado por alguma coisa, de que absolutamente nada se compreende.” [Kritik der reinen vernunft (Crítica da razão pura), ed. Kirchmann, p. 600. Internet: https://archive.org/stream/immanuelkantskri00kant_0#page/600/mode/2up. Consulta: 31/07/2017.]

Mais ainda:

“pretender pois opinar a priori [e portanto fora do campo da experiência] é já em si um absurdo e o caminho mais curto para a mera fantasia.” [Kritik der Urtheilskraft (Crítica da faculdade do juízo), ed. Kirchmann, p. 360. Internet: https://archive.org/stream/immanuelkantskr02kantgoog#page/n383/mode/2up. Consulta: 31/07/2017.]

Há muitas outras passagens em que o filósofo não hesita mesmo em reconhecer os direitos do empirismo, até onde ele não se torna dogmático, mas somente se opõe “à indiscreta curiosidade e audácia da razão desconhecedora do seu destino, que se gaba de penetração e de saber, lá onde cessam propriamente o saber e a penetração, que confunde os interesses práticos e teoréticos, para cortar, onde lhe convém, o fio das indagações físicas” [LANGE, Geschichte des Materialismus (História do materialismo), p. 21. Internet: https://archive.org/stream/geschichtedesma00lang#page/20/mode/2up. Consulta: 31/07/2017].

À vista de tais documentos, não há, pois, razão de rir na cara dos positivistas, quando ousam afirmar que Kant foi um metafísico no sentido de um visionário? Não é o caso de mandá-los todos bugiar, desde os leões da seita até os gatos dos nossos telhados, isto é, desde Comte e Littré até a récua de crétins brasileiros, amarelos, empanturrados, de leque na mão e cigarrinho na boca, fazendo filosofia positiva — que é uma espécie de filosofia dos pobres —, nas calçadas e confeitarias da Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro?

A coisa é realmente singular, e seria até capaz de fazer rir o próprio Heráclito, de quem entretanto se diz que só sabia chorar das misérias humanas. Mas há, aí, sobretudo um ponto que merece especial atenção.

Que Augusto Comte não tivesse senso bastante para compreender a reforma de Kant — ele que, além de não conhecê-la de perto, julgava-se mesmo dispensado desse conhecimento, pois estava convencido de que a única valiosa só era a sua doutrina — é facilmente explicável. Porém o mesmo não sucede com relação a Littré.

Este sábio, que era familiarizado com a ciência alemã, que estava nas melhores condições de entrar no fundo da filosofia kantesca, não tem desculpa de haver deixado sem correção o erro de seu mestre a tal respeito, limitando-se a formar dessa filosofia a mesma ideia de Comte, que a considerou do ponto de vista estreito e sistemático de um crente, para quem não há outra religião senão a sua.

Tenho plena consciência da impressão de horror que vou produzir; mas não importa; aventuro-me a adiantar o juízo da história, que será este: Littré foi um profundo lexicógrafo, um grande linguista, um escritor primoroso, mas um filósofo medíocre. Não lhe coube em partilha a suprema faculdade filosófica de dar ao mundo uma dessas verdades que geram verdades, que são sementes do futuro, atiradas no chão da história, donde rebentam novos pensamentos e novas aspirações.

Não tivesse ele nascido francês, não houvesse florescido em uma época na qual a mania do francesismo havia atingindo a sua maior altura, e talvez que o seu nome não fosse hoje conhecido.

Nem há nisto exageração alguma. É uma verdade deduzida da ordem natural dos fatos, quando não surgem circunstâncias particulares, que neutralizam a sua ação.

Realmente, um homem que concebia a filosofia positiva como “o conjunto do saber humano” (note-se bem: do saber humano!) e este por sua vez como “o estudo das forças que pertencem à matéria e das condições ou leis que regem essas forças”, um homem que assim pensava e acreditava seriamente que esse conjunto e esse estudo existiram na cabeça de A. Comte, como existiam na sua própria, pois um foi o criador e o outro o propagador da célebre teoria — um espírito de tal quilate é um espírito incompleto, adoentado mesmo, que posto em outro meio e cercado de outras relações, poderia até passar por um ridículo fanfarrão. [5]

Entretanto, quero crer que, se não fosse a falsa direção tomada por Littré, se ele se tivesse limitado a cultivar o terreno da ciência livre dos pressupostos forçados da estéril e acanhada filosofia de que se fez apóstolo, muito maior seria seu merecimento e muito mais compreensíveis os motivos do seu renome.

Quanto a nós, porém — é o que resta a liquidar —, quanto a nós, os que não sujeitamos o pensamento à disciplina claustral da filosofia positiva, só existe uma razão de se nos ter em conta de metafísicos: é justamente o não jurarmos pelo santo nome de Comte, é o não sermos positivistas!

Para um católico de lei, o acatólico de qualquer espécie é sempre um herege, um réprobo, um demônio. É o mesmo ponto de vista dos sectários do comtismo, que movem-se na névoa de ideias preconcebidas e frases consagradas.

Em geral os positivistas não querem compreender que o materialismo, do qual o seu sistema é uma das últimas formas, sempre se ressentiu do defeito de satisfazer-se com uma explicação do mundo, que termina precisamente no ponto onde começam os problemas da filosofia. Pôr de lado esses problemas, a título de enigmas inextricáveis ou bolhas de sabão da fantasia de espíritos enfermos, que se nutrem de bagatelas, como certos animas se nutrem de palha é um procedimento cômodo, sem dúvida; porém pouco filosófico.

Os positivistas não querem compreender que uma coisa é metafísica dogmática, que converte sonhos em realidade, que fecha os olhos para melhor ver, que desdenha da experiência, quando esta vai de encontro aos seus oráculos, e outra coisa é metafísica reservada e consciente, que há de sempre existir, se não como ciência, como disposição natural e inerradicável do espírito, segundo Kant. 

E mesmo como ciência — por que não? — a matemática explica grandezas no espaço e no tempo, a física fenômenos da natureza, a experiência científica em geral os fatos existentes. Mas justamente por meio desta experiência realiza-se um novo fato: o da explicação científica mesma.

Ou será porventura o matemático um fato menos real que do que as figuras, o físico menos real do que os corpos, que ele observa, a experiência enfim menos real do que seus objetos? As ciências exatas não podem negar que elas têm uma existência cujo reconhecimento aumenta de dia em dia. Estes fatos seriam os únicos que não necessitam de uma explicação? Não deve portanto haver uma ciência, que faça da explicação deles o seu alvo: uma ciência, que considere a matemática, a física, a experiência, como seus objetos, da mesma forma que a matemática tem por objetos as grandezas, a física os corpos, a experiência as coisas em geral? 

Ou dá-se porventura que a matemática, a física, a experiência, expliquem-se a si mesmas? Se não se explicam, deve haver então uma ciência distinta e autônoma, que esteja para a matemática como esta para as grandezas, que esteja para física como esta para os corpos, que esteja enfim para toda a  experiência como esta para os fenômenos dados.

Esta ciência, tão necessária como as outras, é a filosofia crítica, é a metafísica no bom sentido da expressão. [6]

Tratando de explicar a experiência, ela se eleva muitas vezes além deste limite, e então é a teoria, não do absoluto, que não pode ser objeto da ciência, mas do conceito do absoluto, da origem, da significação e do valor objetivo desse mesmo conceito.

Já se vê que, assim compreendido, o caráter metafísico é inerente a toda pesquisa filosófica, pois, como diz Edmond Schérer, a “filosofia menos a metafísica é a filosofia menos a filosofia” [Études critiques sur la littérature contemporaine, I, p.302. Internet: https://archive.org/stream/etudescritiques02schegoog#page/n333/mode/2up. Consulta: 02/08/2017].]

Antonio Tari, o célebre professor de estética da Universidade de Nápoles, reportando-se a Schopenhauer, diz que no Tibete costumam representar uma pequena comédia teológica, na qual o Dalai Lama disputa com o arquidiabo sobre a realidade ou a idealidade do mundo. Satã, realista, desavergonhado, declama sobre o infalível testemunho dos sentidos. O Lama, respondendo, raciocina sobre a vaidade fenomenal do conhecimento. Depois de um torneio cômico de razões pró e contra, os disputantes, de comum acordo, entregando ao azar a decisão da contenda, jogam a dados a solução metafísica do enigma do universo; e o diabo perde a vaza. [TARI, Appendice di lettere quattro alla monografia “Ente, spirito reale” (1883), p. 63.]

V

O grande feito filosófico de Kant foi a indagação do órgão do conhecimento, o estudo da razão humana. O que é que a esta razão se pode atribuir como próprio, originariamente próprio, antes de toda e qualquer experiência? A filosofia dogmática tinha respondido até então: Deus, liberdade, imortalidade, eternidade, etc. A filosofia sensualista atalhava dizendo: não há tal, só existem formas sensíveis, que a razão recebe do mundo exterior.

Kant, porém, respondeu: nenhuma outra coisa senão espaço e tempo. São estas as formas puras e originais, em que a razão funde todas as matérias da sensibilidade externa, e com cujo auxílio pomos em ordem o mundo inteiro. A atividade ordenadora da inteligência (Verstand), que é quem eleva o grau de efetivo conhecimento o material fornecido pela sensibilidade, se exerce por meio das categorias, que Kant admitia em número de doze.

Entretanto, como Kant mesmo não atribuía a estas categorias um valor apriórico absoluto, não foi muito que Schopenhauer, segundo a sua própria expressão, atirasse-as todas pela janela, reservando somente a causalidade, em sua quádrupla raiz, isto é, como fundamento ou razão da existência, do desenvolvimento, do pensar e do querer.

Tal é a simples mecânica do nosso conhecimento. Apreciando a grandiosa descoberta de Kant, Schopenhauer se confessa sectário do idealismo levantado sobre ela, com a seguinte declaração: “Espaço, tempo e causalidade não são propriedades das coisas, mas são puramente ideais, isto é, existem somente em nossa cabeça. Nós não estamos no tempo e no espaço, mas o tempo e o espaço estão em nós. A essência da coisa em si, fora destas formas da intuição, é imperscrutável”.

Já daqui se depreende quanta razão tinha o chamado Buda da Alemanha em dizer orgulhosamente que Kant até ele, a despeito de toda gritaria, a filosofia não dera um passo para diante.

Foi ele quem melhor sondou o fundo da filosofia crítica; e podemos repetir com Hans Kleser que, ainda quando Schopenhauer nada mais tivesse feito, senão desviar os alemães de Schelling e Herbart, Fichte e Hegel, para obrigá-los a recuar e voltar a Kant, cuja pura língua ele tornou ainda mais lúcida e mais bela, só por isso merecia um lugar importante na história da ciência alemã [KLESER, “Betrachtung zu Schopenhauer 100 Geburtstag am 22 Februar 1888” (Considerações sobre o centenário do nascimento de Schopenhauer, em 22/02/1888), Kölnische Zeitung, nº 8, 1888].

Schopenhauer dizia de Kant que seu principal mérito consistia em ter derrubado a filosofia escolástica com as suas pretensas provas da existência de Deus. Pode-se também dizer de Schopenhauer que o seu maior merecimento foi lançar do trono os imediatos discípulos de Kant, e elevar de novo o grande filósofo à sua verdadeira altura. É um fenômeno, ainda hoje digno de estudo, a diversidade de sentido a que se prestou o kantismo entre os filósofos do tempo, sendo aliás incontestável que o mesmo autor da Crítica da razão pura, além de ser claro na exposição da sua filosofia, não perdeu posteriormente ocasião alguma que se lhe oferecesse para melhor acentuar o seu pensamento. [7]

Entretanto os discípulos divergiram entre si na maneira de compreender o mestre. Além de Reinhold e Fries, que fundaram, aquele a primeira, e este a segunda escola kantesca em Jena, os nomes de Fichte, Schelling, Hegel, Oken Herbart e Krause indicam outras tantas direções da evolução do kantismo.

Mas esta divergência não provinha das dificuldades inerentes ao sistema, porém, sobretudo, da abundância de ideias novas, da riqueza de pontos de vista, dos quais cada um dos discípulos tomava o seu e acreditava poder, somente daí, dominar todo o horizonte do mundo filosófico.

Ainda em vida do filósofo, e logo depois mesmo da publicação da Crítica foram tais as falsificações da sua doutrina interpretada por alguns em sentido exageradamente idealístico, que ele viu-se obrigado a protestar. Vale a pena referir um desses protestos.

Ei-lo aqui:

“O princípio de todos os verdadeiros idealistas, desde os eleáticos até o bispo Berkeley, está contido na seguinte fórmula: todo conhecimento adquirido por meio dos sentidos não é mais do que simples aparência, e só nas ideias do entendimento e da razão pura existe a verdade. Pelo contrário, o princípio que dirige e determina o meu idealismo, é o seguinte: todo conhecimento das coisas por meio do puro entendimento ou da pura razão é simplesmente aparente, e a verdade só existe na experiência.”

Como se vê, uma completa antítese entre um e outro modo de pensar. Nada mais falso, portanto, do que a opinião que ainda hoje vigora entre nós de ter sido Kant um perfeito idealista, e de formar o seu sistema um dos mais belos triunfos do racionalismo moderno.

É certamente um erro clamoroso, que só se explica por total ignorância das obras do filósofo. Esse lado realístico da sua teoria, Kant esforçou-se por tornar cada vez mais saliente, quer nos Prolegômenos escritos para esclarecer a Crítica da razão pura, quer nas reformas e correções da segunda edição da mesma Crítica. 

Se todo o nosso saber pressupõe a intuição dos sentidos, como seria possível uma ciência do que está acima dessa esfera? Uma psicologia, uma cosmologia e um teologia racionais são três brincos do pensamento, são três ciências fantásticas, sobre as quais não há, nem poder haver certeza de que correspondam a alguma coisa de real e objetivo.

Kant demonstrou uma vez por todas a impossibilidade de uma ciência do hipersensível. Se a sua cabeça tivesse sido vasada no mesmo molde da de Augusto Comte, pode-se dizer afoitamente que o positivismo, com a sua estreiteza de âmbito e a sua fátua pretensão de eliminar do espírito humano o elemento metafísico, sem dar-se ao trabalho de inquirir e estudar a sua fonte, o positivismo, como hoje vemo-lo, teria primeiro aparecido com Kant.

Mas o grande filósofo alemão, antes de tudo, era um homem sério, além de ser um espírito sadio. Reconhecendo o que havia de ilusório no velho dogmatismo filosófico, não se deu todavia por satisfeito com a simples declaração de que o mundo objetivo da metafísica tradicional é uma falsa aparência; ele foi muito mais adiante, para deixar peremptoriamente assentado que a razão humana, por si só, a chamada razão pura, não fornece o conhecimento de coisa nenhuma.

Neste sentido são dignas de especial menção as seguintes palavras do filósofo, tão acertadas, tão cheias de um frescor atual, que dir-se-iam dirigidas ao positivismo dos nossos dias:

Só a temperança de uma crítica rigorosa e justa pode livrar-nos dessa fantasmagoria, que a tantos conserva presos pelo atrativo, de imaginária felicidade, e restringir todas as nossas pretensões exclusivamente ao campo da experiência possível, não por meio de insípida zombaria das tentativas tantas vezes malogradas, ou por meio dos pios lamentos sobre os limites da nossa razão, mas mediante uma demarcação dos seus domínios, executada segundo princípios certos, a qual com a maior segurança inscreve o seu não mais adiante, nas colunas hercúleas, que a natureza mesma levantou, para continuar a viagem da razão somente até onde se estendem as plagas da experiência, que nós não podemos abandonar, sem aventurarmo-nos a um oceano sem margens, que sob aspectos sempre enganadores afinal nos obriga a abrir mão de todo o penoso e demorado esforço, como incapaz de nutrir a mínima esperança.” [KANT, Sämmtliche Werke, Rosenkranz, III, p. 314].]

Em outro lugar ainda ele disse com mais clareza:

“Para instigar a razão contra si mesma, fornecer-lhe armas de ambos os lados e assistir então tranquilo e desdenhoso ao seu violentíssimo combate, parece um ato de malignidade. Querer recomendar a convicção e confissão da própria ignorância, não só como remédio contra a presunção dogmática, mas também como o único modo de terminar a luta intestina da razão, é um propósito inteiramente inútil, que não pode de modo algum contribuir para dar à mesma razão um complemento e definitivo repouso”.

Perfeitamente. Sem querer e sem saber, Kant talhou uma carapuça, que assenta em cheio na cabeça dos positivistas hodiernos.

Estes senhores, que vivem sempre a falar de uma disciplina mental, a que o seu sistema os subordina, e pela qual não lhes é lícito transportar uma certa ordem de ideias, ignoram duas coisas: 1ª — que essa disciplina, tomada no sentido de só dever-se estudar e aprender o que Comte mandou que se estudasse e aprendesse, é uma dogmática de novo gênero, e, como todas as dogmáticas, um processo de encurtamento e atrofia cerebral; a 2ª — que uma vez admitida a necessidade de uma disciplina da inteligência, em sentido mais elevado, é preciso reconhecer que foi Kant quem a criou.

Em mais de uma passagem das suas obras o filósofo insiste na ideia de que a utilidade da crítica da razão pura é de caráter negativo, pois que ela não serve de órgão para aumentar o nosso saber, porém de disciplina para determinar os seus limites; em lugar de descobrir verdades, tem apenas o merecimento de prevenir erros.

Assim como o mister da filosofia em geral consiste mais em cortar do que fazer brotar luxuriosos rebentos, assim também a crítica da razão é o meio de arredar a oca presunção de sabedoria. Ela mantém-se para com a metafísica escolástica exatamente como a química para com a alquimia, ou como a astronomia para com a divinatória e predizente astrologia. [KANT, Sämmtliche Werke, Rosenkranz, II, p. 384 e 613; III, p. 143; VII, p. 352.]

Não ficamos aí. Segundo o nosso filósofo, há dois modos de conhecimento racional: por intuição e por conceitos. O conhecimento por intuição é matemático; o conhecimento por conceitos é filosófico. Todos os puros juízos da razão ou princípios apodícticos, no primeiro caso, são mathemata; no segundo, são dogmata.

Mas não há uso dogmático da razão, não há conhecimento racional que se refira imediatamente à essência da natureza das coisas. Os dogmas filosóficos provocam sempre as suas antíteses. O domínio metafísico, dogmaticamente cultivado, enche-se logo de contradições; ao juízo afirmativo opõe-se o negativo com a mesma pretensão à validade, e em algum lugar de uma ciência acabada e irrefutável, como é a matemática, a metafísica torna-se o campo de batalha de opiniões e sistemas contrários.

Nesta luta, quem toma partido por umas das opiniões opostas mantém-se dogmaticamente. A quem não quer assim proceder, só restam dois caminhos a seguir: ou atacar e refutar uma das duas afirmações, sem por isso defender a outra, ou negar igualmente ambas. Na primeira hipótese, tomamos uma atitude polêmica; na segunda, uma atitude cética.

Mas a atitude polêmica é sempre mais ou menos falsa; e afinal toda polêmica degenera em dogmática. O ponto de vista cético nega todo o conhecimento racional, e em lugar de uma imaginária e pretendida ciência das coisas, coloca a convicção da nossa ignorância. Mas sobre que se apoia esta convicção do cético? Com que fundamentos quer ele conhecer e provar a ignorância da razão humana? Ou com fundamentos da experiência, ou com fundamentos da razão mesma. No primeiro caso, ela é simples percepção; no segundo ela ciência do real.

Suponhamos o primeiro caso, que efetivamente tem lugar no cético, e veremos que o ceticismo não repousa sobre nenhuma base geral e necessária, não descansa em nenhum princípio, é simplesmente uma tese empírica, que, incerta e vacilante, como todas do mesmo gênero, está por sua vez sujeita à dúvida, e deste modo facilmente se dissolve.

Se, porém, a convicção cética é haurida no estudo que se faz da natureza da razão humana, se ela é baseada em princípios, então é uma ciência dos limites da mesma razão, um verdadeiro e real conhecimento. O ceticismo, pois, ou é incientífico e por isso infundado, ou, se é científico, não é mais cético, porém crítico.

Esta diferença do ponto de vista cético e crítico pode torna-se ainda mais saliente por uma comparação tirada do geógrafo e do observador comum. Este conhece somente os limites do seu horizonte, ao passo que aquele conhece os limites da terra e da geografia em geral. Como o empírico e o geógrafo mantêm-se entre si relativamente à explicação do horizonte humano, assim mantêm-se o filósofo cético e o filósofo crítico no tocante à explicação do conhecimento.

O filósofo crítico é o geógrafo racional; ele conhece o diâmetro da razão, sua extensão e seus limites, ao passo que o filósofo cético só presta atenção aos seus términos exteriores, e tem da sua verdadeira constituição uma ideia tão pouco desenvolvida como aquele empírico que só sabe explicar os limites do horizonte pela experiência sensível, sem conhecer a verdadeira forma da Terra.

Que nosso horizonte é limitado em todos os casos — nisso estão de acordo a percepção empírica e a ciência geográfica, mas as razões explicativas são diferentes. Assim podem também o filósofo cético e o filósofo crítico harmonizar-se na mesma afirmação, que aliás eles fundamentam de modo mui diverso.

Compare-se por exemplo Kant com Hume, a quem mesmo Kant considerava “o mais talentoso dos céticos”. Para ambos a causalidade é um conceito, que só tem valor empírico. Mas o filósofo cético afirma que o conceito da causalidade é formado por meio da experiência, ao passo que o crítico sustenta que a experiência é formada por meio desse conceito.

Eis aí. É preciso não conhecer de Kant, se não o nome, para comungar a errônea ideia de ter sido ele um metafísico, um racionalista, um vidente de coisas transcendentais e invisíveis, como tantos outros, que têm enchido de sonhos e disparates a história da filosofia. A verdade está na afirmação contrária.

A obra decisiva de Kant consiste justamente em que por meio dele a filosofia dogmática tornou-se filosofia crítica, ou, como disse Schiller, em ter ele, da razão filosofante, restabelecido a sã razão.

Há mais de trinta anos (1857) Rudolf Haym falava de uma filosofia do futuro, que deveria ser de novo uma filosofia crítica. Chegou enfim essa época de renovação filosófica, que já foi dignamente iniciada pelos trabalhos de Hartmann, Noiré, Spir, Fortlage e outros. Resta somente que os espíritos, para quem a filosofia não é assunto de entretenimento banal, mas uma das mais nobres ocupações do pensamento humano, saibam aproveitar-se do exemplo e da lição dos mestres.


Notas
[1] É preciso entretanto observar que nessa época o Colégio Pedro II ainda não contava no seu corpo docente o insigne talento de Sílvio Romero, que é ali presentemente professor da disciplina Filosofia. Mas também aproveito a ocasião para dizer que Sílvio Romero mesmo ainda me serve de prova do nenhum valor que têm no Brasil os estudos filosóficos. A influência mesológica foi perniciosa ao ilustre professor. Reconhecendo a impossibilidade de uma reação benéfica, ele viu-se obrigado a ser rotineiro, a ensinar somente pelo esterilíssimo programa oficial [da disciplina]. O resultado era inevitável: das matérias que ele cultiva, é hoje a filosofia a que talvez menos preocupe o seu elevado espírito.

[2] KANT, Prolegomena zur einer jeden künftigen Metaphysik, die als Wissenschaft wird auftreten können (Prolegômenos a toda metafísica futura que possa apresentar-se como ciência), ed. Rosenkranz, III, p. 9. Internet: https://archive.org/stream/b21913407_0003#page/n23/mode/2up. Consulta: 02/08/2017.

[3] Em honra da verdade, é preciso confessar que o Brasil já teve um filósofo extraordinário: foi aquele menino insigne, filho do autor dos Fatos do espírito humano, de quem este se ocupa em um dos últimos capítulos da sua obra; criança maravilhosa, de um gênio filosófico muito superior ao do seu pai, que na tenra idade de oito anos já sabia dar uma definição de Deus, capaz de fazer impallidir i filosofii, como diria Gallupi. Realmente esse menino prodigioso, se não tivesse morrido, seria hoje a maior glória literária do Brasil; como também sê-lo-iam alguns outros, que por aí andam já maduros e experimentados, se não tivessem vivido; deixando então aos pais filósofos o cuidado de nos contarem as maravilhas de sua precocidade filosófica.

[4] Merece aqui uma apreciação particular o modo por que o chefe do positivismo francês julgou o autor da Crítica da razão pura. No primeiro volume do Cours (p.123; internet: https://archive.org/stream/coursdephiloso01comt#page/122/mode/2up; consulta: 02/08/2017), Augusto Comte, que certamente nunca tinha lido Kant, pois os termos da sua crítica mesma dão a conhecer que ele falava de oitiva, atribui ao filósofo alemão a divisão geral das ideias humanas segundo as duas categorias da quantidade e da qualidade... Mas é uma falsa atribuição, proveniente sobretudo da ignorância de Comte sobre o conceito da categoria na linguagem filosófica de Kant. Com efeito: eu ouso perguntar, já não a Comte, porém aos seus mais fanáticos discípulos de aquém e de além-mar: em que parte das obras do filósofo tedesco está escrito que as ideias humanas se dividem daquele modo? Vamos lá; respondam; quero ver isto. E se é certo que Kant nunca fez semelhante divisão, que juízo deve-se formar da seriedade científica do tal Sr. Augusto Comte? Mas o melhor é o seguinte. Em uma das últimas lições (vol. 6 , p. 619 ), Comte diz : “Le plus grand des métaphysiciens modernes, I’illustre Kant, a noblement mérité une értenelle admiration en tentant, le premier, d’échapper directement à l’absolu philosophique par sa célèbre conception de la double realité, à la fois objective et subjective, qui indique un si juste sentiment de la saine philosophie” [COMTE, Cours de philosophie positive, VI, p. 669; internet: https://archive.org/stream/coursdephilosop06comt#page/668/mode/2up; consulta: 02/08/2017]. É um pedaço interessantíssimo. Salta aos olhos a falta de compreensão da reforma de Kant. Dizer que este filósofo foi o primeiro que tentou escapar do absoluto é um erro pueril, já porque antes dele outros tinham feito a mesma tentativa, já porque Kant não se limitou a querer evitar o absoluto, ele o eliminou totalmente do domínio da filosofia, como objeto de conhecimento. E além disso, ainda afirmar que esse grande mérito de Kant proveio de sua célebre concepção de dupla realidade, ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, é um disparate inqualificável. É imputar ao filósofo alemão um dualismo que está em perfeita oposição com a ideia capital de sua teoria; dualismo que, entretanto, não exclui o absoluto. Os filósofos dogmáticos, os metafísicos propriamente ditos, que fizeram do mundo hipersensível objeto de sérios estudos, foram pela mor parte dualistas. De tudo isso se depreende que Augusto Comte falou de Kant como falou de muitas outras coisas, ignorando-as completamente; mas julgava poder apreciá-las por uma espécie de intuição profética, própria de seu caráter do salvador do espírito humano!

[5] Realmente o velho sábio francês já era vítima de uma espécie de monomania positivista, e como tal produzia muitas vezes uma impressão de bobice que causava dó. É assim que já tinha chegado ao ponto de enviar urbi et orbi a benção papal do comtismo, dirigindo cartas consoladoras a todos os que nele viam o seu diretor espiritual e descobrindo por toda parte até nas Farpas do escritor português Ramalho Ortigão, quelques directions positivistesO vulto histórico de Littré é semelhante a certas montanhas que vistas por um lado mostram-se altíssimas, inacessíveis, sublimes, ao passo que do lado oposto apresentam um declívio tão suave, que pode-se galgar o cimo até a cavalo. O colaborador de Robin, o autor do dicionário, o tradutor de Hipócrates, é o lado escarpado e majestoso da montanha; o discípulo de Comte, porém, é a parte prosaica e rasteira que não desperta nem merece atenção.

[6] Kuno Fischer, Geschichte der neuern Philosophie, III, p. 15 e 16. Releva aqui advertir que é este pelo menos o sentido que a metafísica tem na Inglaterra, isto é, o da teoria do conhecimento, ou de um ramo dela. Assim por exemplo, M’Cosh, em sua obra The laws of discursive thought (1870), diz: “The science which treats of the intuitive operations of the mind is called Metaphysics” (p.1). Mas também, segundo Lewes (Hist. of Phil., 1, p. XXIII): "[Metaphysics] sometimes means ontology. Sometimes it means the highest generalities of Physics”.

[7] Isto destoa do modo de ver mais seguido, que é atribuir a Kant uma obscuridade insuperável. Porém, tal obscuridade não passa de uma história de franceses, criada e fomentada por V. Cousin, que não era um filósofo, que achava, portanto, incompreensível tudo que ia além do chamado senso comum.